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Monthly Archives: Novembro 2013

THE END OF BOOKS (Robert Coover) // USING COMPUTERS (A DIRECTION FOR DESIGN) (Terry Winogrand / Fernando Flores)

The Third Hand, Stelarc, 1980, performance art

The Third Hand, Stelarc, 1980, performance art

Torna-se recorrente, a partir da década de 80, questionar ou descrever de que forma o homem se adequa à omnipresença da tecnologia, onde os computadores e a inteligência artificial tornam-se uma parte importante da vida de todos e crescem num mundo virtual.

Ao dar literalmente ao homem uma prótese tecnológica que nos questiona das possibilidades do futuro, “The Third Hand” coloca-nos perante uma constante construção de relação íntima com a tecnologia, e parece ser um exemplo metafórico da ideia de McLuhan de que o meio é a mensagem e uma extensão do homem. Aqui encontramos um confronto contínuo, que tem vindo a aparecer ao longo dos tempos, onde existe uma continuidade dividida por diferentes tecnologias.

Este confronto leva-nos a repensar a essência de variadas abordagens interdisciplinares, e o texto “The End of Books” de Robert Coover [1] é um exemplo construtivo de como no mundo real e actual um meio pode ser forçado a ser ultrapassado. Podemos pensar nisto quando o autor afirma existirem três momentos na história da alfabetização, a invenção da escrita, a invenção do texto dactilografado, e a invenção do hipertexto. Aqui percebemos a existência de um factor primordial do mundo contemporâneo, a passagem do manual para o digital.

“(…) true freedom from the tyranny of the line is perceived as only really possible now at last with the advent of hypertext, written and read on the computer, where the line in fact does not exist unless one invents and implants it in the text.”

(Coover, 1992, p.706)

O hipertexto apresenta uma tecnologia radical, interactiva e polivalente que oferece a pluralidade de discursos e liberta o leitor de um eventual domínio pelo autor. Seguindo a linha de pensamento de Coover, o processamento electrónico do texto maneia a próxima grande mudança da tecnologia de informação depois do desenvolvimento do livro impresso. Ele providência múltiplos caminhos entre segmentos de texto e anuncia que o leitor e o escritor serão co-aprendizes e co-autores.

É fácil comprovar actualmente, no nosso dia-a-dia, de como esta nova forma tecnológica tem vindo a provocar efeitos na nossa cultura, particularmente na literatura, na crítica e na educação. Ela permitiu a existência de uma escrita num espaço proporcionado pelo computador, onde não existem hierarquias ou uniformidade e onde blocos de texto são substituídos por janelas.

Nesta tecnologia de comunicação o autor afirma existirem ramificações, menus, links, redes mapeadas, onde a imaginação e a criatividade acabam por estar mais centradas nestes conceitos e não estão tão preocupadas com a declaração em si. Acaba por existir uma constante surpresa e experiência em descobrir quais as trajectórias ou intersecções possíveis nos fragmentos de texto.

Mas mais importante do que a descrição do que é o hipertexto, na minha percepção, é a ideia final transmitida por Robert Coover onde afirma que por mais séculos que o hipertexto esteja presente no mundo, talvez não esteja tanto tempo como o livro impresso, pois o seu hardware e software parecem frágeis e possíveis vítimas de um curto prazo de vida. (Coover, 1992, p.708)

“Print documents may be read in hyperspace, but hypertext does not translate into print.”

(Coover, 1992, p.709)

O que entendo com isto é que, embora nunca haja um fim do livro impresso, o texto está a perder a sua forma original, a sua força fluída de integridade para passar a ser distendido, sendo importante tentar perceber e procurar uma forma de conciliar coerência e continuidade. E como Coover refere, perceber enquanto leitor e escritor onde está o fim de uma narrativa, e perceber se o desejo de levar uma narrativa a qualquer lado a qualquer momento e em diferentes direcções se tornará numa obrigação.

No esforço de continuar a relacionar tecnologia e transformação, Terry Winograd e Fernando Flores também constroem uma crítica pungente da inteligência artificial, das ferramentas do mundo tecnológico, ou mesmo do hipertexto e do livro.

Com o texto “Using Computers – A Direction for Design”, os autores procuram essencialmente passar uma mensagem de que abandonar o trabalho até aqui realizado nos novos media, ou que deixar os computadores em contextos comunicativos é errado. Eles pretendem despertar em nós a necessidade de olhar para o computador como uma ferramenta, onde é necessário explorar os modelos e aspectos computacionais da inteligência artificial. Fundamentalmente procuram documentar e descrever de que forma se pode usar o conhecimento adquirido através da cultura computorizada, para traçar uma linha de pensamento positivo dos novos media enquanto ferramenta de design.

E na perspectiva de que um mau design obriga o utilizador a lidar com complexidades que pertencem a um domínio errado, são várias as ideologias e os temas aqui apresentados que nos orientam a desenvolver uma linguagem limpa e clara, que insere os utilizadores no mundo criado por nós.

Desta forma salientam, em primeiro lugar, que é importante não entender a falha como uma situação negativa a ser evitada, mas sim como uma situação de fácil e rápida percepção de reconhecimento do que falta na rede das ferramentas que estão a ser utilizadas.

“A breakdown reveals the nexus of relations necessary for us to accomplish your task.”

(Winograd e Flores, 1986, p.553)

Assim como a falha, acrescentam que a cegueira criada pelo design não é algo que possa ser evitado, mas que podemos estar cientes dela e desta forma estar atentos. Penso que devemos olhar para este texto como um “manual de instruções” de como utilizar o computador como um veículo para a transformação da tecnologia.

Tentando absorver tudo o que é dito pelos autores, entendo que ao utilizar o computador como ferramenta de trabalho, como qualquer outra tecnologia, não podemos escolher se este efectua ou não uma transformação, que transformação será, nem mesmo se estamos totalmente cientes dessa transformação. Mas, que podemos trabalhar no sentido de desvendar estas questões, e deixar as potencialidades da nossa consciência guiar as nossas acções, que por sua vez estão atentas à criação e à aplicação da tecnologia.

Como descrevem e definem com o termo design ontológico, ao aplicá-lo, estamos a fazer mais do que perguntar o que pode ser construído, estamos envolvidos num discurso ontológico sobre nós mesmos, o que podemos fazer, e o que podemos ser.

Desta forma é fundamental olhar para as ferramentas disponíveis na nossa realidade como instrumentos fundamentais da acção, pois é por meio da acção que geramos o mundo e que transformamos as nossas preocupações em ciclos de contínua evolução, e compreendemos o nosso mundo envolvente.

Referências Bibliográficas:

– COOVER, Robert, (1992) The End of Books, in The New Media Reader. Cambridge, MA: The MIT Press, 2003.

– WINOGRAD / FLORES, Terry / Fernando, (1986) Using Computers – A Direction for Design, in The New Media Reader. Cambridge, MA: The MIT Press, 2003.

THE MEDIUM IS THE MESSAGE (from Understanding Media, 1964) // THE GARDEN PARTY (EXCERPTS) (Billy Klüver, 1961)

Presença é, segundo o dicionário da língua portuguesa, o “facto de estar/ comparecer num lugar determinado”. Do latim praesentia, esta é uma palavra que enquanto conceito tem vindo a ser alvo de inúmeros significados, uma vez que tem vindo a acompanhar a crescente evolução e transformação da tecnologia e do nosso mundo. Presença já não é o que era, estar já não significa físico e comparecer deixou de representar expor-se.

Estaremos presentes e a viver num mundo real ou num virtual? Estaremos efectivamente a viver alguma coisa? 

Numa mesa juntamente com outras pessoas uma pessoa encontra-se presente, mas pode continuar presente online, numa conversa via internet. Apesar de certa forma estar presente, isto não significa que esteja realmente presente num sítio, no fundo não está em nenhum. Na mesa, esta pessoa está fechada em si mesma, sentada como se estivesse pressa, sem comunicar ou socializar verdadeiramente com o que se encontra ao seu redor.

Podendo ser utilizado como um exemplo para o discurso de Sherry Turkle (1948) em “Connected, but alone?”, neste exemplo encontramos aqui um meio de comunicação que é utilizado para comunicar, socializar, divertir-se, trabalhar, e que no fundo, a pessoa que o utiliza, acaba por viver simultaneamente em dois mundos através dele.

Encontramos aqui uma realidade do discurso de Marshall McLuhan [1] quando afirma em “The Medium Is the Message” que um meio é uma extensão do ser humano, um canal de comunicação que serve como veículo da transmissão da mensagem. Sublinha inúmeras vezes no texto esta ideia, onde o meio é visto como um componente determinante da comunicação, algo que adiciona qualquer coisa ao que já somos.

O meio é a mensagem. Esta formulação introduz uma nova dimensão na nossa vida pessoal, social e profissional. De acordo com o conceito de McLuhan, que apresentou o conceito de “aldeia global”, o conteúdo de qualquer meio é sempre um outro meio. (McLuhan, 1964, p.203). A escrita é o conteúdo da impressa, o conteúdo da escrita é a expressão, e o conteúdo do discurso é um processo de pensamento não-verbal.

Percebe-se que McLuhan faz uma diferenciação nas várias etapas da extensão dos media, distinguindo três períodos. Começa por enunciar uma cultura oral, própria das sociedades não alfabetizadas, onde o principal meio de comunicação é a palavra oral, onde sentidos como a audição ou o gosto são mais desenvolvidos do que a visão. Aqui é favorecido o envolvimento, a proximidade, e a espontaneidade nas interacções.

De seguida encontramo-nos com uma cultura tipográfica, que caracteriza as sociedades alfabetizadas, e como o próprio nome enuncia, dá um privilégio à escrita e à leitura, acabando por predominar e ser valorizado o visual. A lógica e o pensamento linear aqui utilizados desenvolvem disciplinas como a matemática a filosofia e a ciência. Por último, e com pressentimentos da actualmente, McLuhan fala de uma cultura electrónica que é determinada por uma participação e pela velocidade imediata que caracteriza os meios eléctricos. Segundo o autor esta cultura pode promover a retribalização da humanidade e apela a uma integração sensorial oferecida pelos meios. (McLuhan, 1964, p.207)

Esta última era coloca-nos em confronto com novas estruturas de correlação humana e desencadeia uma detenção pluridimensional, reimplantando uma expressão de comunicação oral perdida até então. A cultura eléctrica, ao actuar pela luz eléctrica, faz com que apareçam novos conteúdos e apela a uma percepção global dos dados, a uma integração intelectual, promovendo o saber. Desta forma, a luz como um meio molda a forma de agir e de interpretar as coisas.

De forma resumida, os media sofreram transformações tanto económicas como sociais e formais na sua história, eles originam mudanças na comunicação levando a própria sociedade a mudar. McLuhan ao referir-se aos meios de comunicação como meios que transmitem mensagens e que recorrem aos nossos sentidos para se fazerem transmitir, utilizando a tecnologia como prótese/ extensão, apercebemo-nos de uma relação entre os media, a organização social e as formas de pensamento nos vários momentos da história humana. É aqui que penso ser pertinente abordar o texto “The Garden Party” de Billy Klüver [2].

“Homage to New York” obra de Jean Tinguely (1925-1991), um dos artistas fundadores do Novo Realismo, com a parceria de Billy Klüver, é um exemplo de um pensamento da época, de uma relação entre os media, tecnologia, estrutura social e pensamento histórico. Neste excerto o autor faz uma apreciação da obra em que colaborou afirmando “The machine was not a functioal object and was never treated like one.” (Klüver, 1961, p.213)

Homage to New York, Jean Tinguely,1960, mixed media

Homage to New York, Jean Tinguely,1960, mixed media

Esta máquina-escultura que se auto-destrói foi apresentada em 1960, no jardim do Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, e foi o começo da história de um grupo revolucionário que experimentou as possibilidades da tecnologia na arte, Experiments in Art and Technology (E.A.T.).

Klüver, no seu texto, menciona que Jean não estava interessado apenas nas operações funcionais mas também nas possibilidades experimentais que a máquina lhe podia oferecer, citando “Jean’s machine was conceived out of “total anarchy and freedom” as he puti t”. (Klüver, 1961, p.213)

Jean desconsiderou as regras mais simples da engenharia durante a construção da sua máquina, e tanto num instante exigia que alguma coisa funcionasse, como num momento seguinte violava essa demanda de uma forma trivial.

Através desta aliança entre engenheiro e artista, percebemos que Billy Klüver (1961) acredita que a auto-eliminação da máquina, assim como a sua autodestruição, é um ideal tanto para as máquinas como para o homem. Afirma também que assim como em todos os momentos que se vê e se experimenta a mudança, “Homage to New York” representa esse momento nas nossas vidas.

Aqui percebe-se uma forte essência e vontade de eliminar a ideia de protesto contra a máquina, e de aliar todas as potencialidades da tecnologia a formas de expressão artística. Ao tentar relacionar esta obra com “The Medium Is the Message”, penso ter encontrado uma forte posição comum a ambos os feitos.

Tal como McLuhan, a obra que mais tarde foi retractada por Michael Landy [3], não pretende questionar se somos ou não dominados pelos media ou se os dominamos. Representada por um pensamento e movimento revolucionário que procurava compreender a evolução e aliar-se a ela, movimento esse representado por artistas como John Cage (1912-1992), Lucinda Childs (1940) ou Robert Rauschenberg (1925-2008), esta obra e o texto de McLuhan pretendem perceber em que medida os media nos transformam a nós e às nossas instituições.

H.2.N.Y. Self-constructing Self-destroying Tinguely Machine, Museum of Modern Art, 17th March 1960, Michael Landy, 2006, carvão sobre papel, 1500 x 2270 mm

H.2.N.Y. Self-constructing Self-destroying Tinguely Machine, Museum of Modern Art, 17th March 1960, Michael Landy, 2006, carvão sobre papel, 1500 x 2270 mm

Numa altura em que penso ser importante estar atento aos sinais de mediatização, podemos entender e olhar a presença como disponibilidade, e desta forma estar disponível para contestar o passado, interpretar o presente e agir para um futuro.

[1] Marshall McLuhan (1911-1980) foi um teórico canadiano e patriarca da sociedade digital que estudou os meios de comunicação, particularmente as consequências das alterações das tecnologias da comunicação na cultura e nas sociedades humanas.

[2] Billy Klüver (1927–2004) foi um engenheiro que juntamente com Robert Rauschenberg (1925-2008), Robert Whitman (1935) e Frederick Waldhauer (1927–1993) fundou a Experiments in Art and Technology (E.A.T.), em 1966, tendo sido anunciada à imprensa em 1967. Descrito como um pai da arte electrónica e conhecido por unir a ciência e a arte, na altura em que fundou a E.A.T. trabalhava para a companhia Bell Telephone Laboratories.

[3] Michael Landy (1963) é um artista plástico contemporâneo que coloca no seu trabalho uma forte influência de Jean Tinguely, assim como a crença de Tinguely na energia de Nova Iorque e na sua capacidade de regeneração.

Referências Bibliográficas:

– McLUHAN, Marshall, (1964) The Medium Is the Message, in The New Media Reader. Cambridge, MA: The MIT Press, 2003.

– KLÜVER, Billy, (1961) The Garden Party, in The New Media Reader. Cambridge, MA: The MIT Press, 2003.