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Monthly Archives: Fevereiro 2014

Estudos Contemporâneos em Design // Aula 9

Ao falar de Design e Democracia penso ser pertinente começar por referir o quanto importante acho que se debata e pense o que é afinal o design na actualidade, num universo onde a democracia intitula-se um governo constituído através da discussão. O termo democracia representa mais do que deveres civis, e um grupo sistemático de maiorias que acha que não precisa realmente de argumentar as suas opções danifica e reduz esta discussão. Passa a ser, então, realmente importante assegurar que a discussão é estimulada, quotidiana e de qualidade, de forma ampla.

Gui Bonsiepe cumpre com este papel ao expor as suas ideias, porém, e como começa por referir em “Design e Democracia” o design e o seu discurso projectual têm limitado o acesso ao debate, distanciando-se da ideia inicial de questionar a actividade projectual. Existem agora modismos e uma necessidade de marcar terreno com argumentos de autoridade e individualismo. O designer passou a representar-se como marca, esquecendo-se das suas qualidades que podem ser usadas em iniciativas de participação democrática.

Nesta perspectiva Bonsiepe apela a uma reavaliação académica. Propõe a criação de alianças fora do sistema formalmente estabelecido que superem a distância entre a ciência e o design, de modo a gerar uma maior proximidade entre as perspectivas científicas e projectuais e superar a ausência actual do design. Não pretende com isto transformar o design em ciência ou numa actividade científica, mas criar uma coesão entre complexidade temática e metodologia, aproveitar o conhecimento científico e reconhecer uma actividade projectual nas actividades científicas. Mas é preciso mais do que uma restruturação académica.

Relacionando democracia e design, o autor fala de uma democracia que dita as relações sociais e que se traduz numa supremacia de mercados. Inserida num contexto neoliberal, e tal como aconteceu no design, diz que “o conceito de democracia sofreu lamentável desgaste nos últimos anos (…)”. (Bonsiepe: 20). Aqui o capitalismo e a produção industrial em massa fazem parte de um contexto que relaciona a natureza e o homem num pensamento condicionante, limitando a sustentabilidade e um desenvolvimento saudável das potencialidades humanas.

Numa busca por soluções o autor fala de um design próprio de posicionamento humanista, onde a heteronomia, subordinação a uma ordem imposta por agentes externos, é reduzida. Acredita que só assim é possível uma consciência crítica que faça frente a este desequilíbrio (antidemocrático) entre centros de poder e os que se submetem a eles.

A sua noção de uso do design como ferramenta de poder e sedução neste discurso manipulador é realmente arrebatadora.

Opondo-se à subsunção do design ao marketing, Bonsiepe observa a prática projectual como uma actividade que está inevitavelmente exposta a contradições (socialmente desejável, tecnicamente exequível, ambientalmente recomendável, economicamente viável, culturalmente defensível), mas diz, e não poderia deixar de concordar, que expor as contradições e esclarece-las ocorre em primeira instância no discurso crítico, e só a crítica e uma atitude discursiva permite realmente mudar e questionar as coisas.

De modo a concluir, o ambiente da prática profissional com as suas pressões e condicionalidades, não permite muitas vezes discutir design, como actua e o que proporciona, mas a nossa tarefa é combater esta tendência.

“Sem um elemento utópico, não será possível construir um mundo diferente e restaria apenas um desejo piedoso e etéreo sem maiores consequências. Sem esse elemento utópico, ainda que residual, não será possível qualquer redução de heteronomia.”

(Bonsiepe: 20)

As instituições académicas e grupos externos ao mercado de trabalho têm um papel essencial na conduta desta iniciativa. 

– BONSIEPE, Gui. Design, cultura e sociedade. Design e Democracia. São Paulo: Blucher, 2011

Estudos Contemporâneos em Design // Aula 8

Depois de ler os textos de Paola Antonelli, “Evolution: The Future of Museum Collections of Design”, e de Peter Weibel, “The Museum of the Future”, lembrei-me de imediato de um episódio do Verão passado. Era um daqueles dias de imenso calor onde só se estava bem dentro de espaços fechados e frescos, mas como já andávamos de viagem a algum tempo, as entradas pagas tinham que começar a ser ponderadas.

Estava juntamente com uma amiga no Statens Museum for Kunst, em Copenhaga, e decidimos perguntar a opinião acerca das exposições que estavam lá de momento, de forma a decidir se gastávamos ou não o pouco dinheiro que nos restava nos bilhetes para o museu. Na casa dos quarenta anos, duas senhoras acabam por conversar connosco sobre o museu e as exposições, e sobre uma delas afirmam algo como: “É espantoso! A exposição é sobre o mar e elementos marítimos”. We the People, do artista Danh Vo, era a exposição de que falavam.

Num primeiro momento, e depois de uma visão geral da exposição, ainda pensei que eu não estava a conseguir atingir o objectivo da exposição, pois a minha interpretação estava bem distante da interpretação delas. Depois de me aperceber que a minha amiga estava como eu, deparamo-nos com um filme projectado numa grande parede branca que abordava o processo de trabalho do artista. As peças expostas eram peças isoladas de uma réplica em escala real da Estátua da Liberdade. Tudo era explicado e de fácil entendimento.

À saída confrontamo-las, sugerimos que voltassem lá e que prestassem atenção à projecção, e isto não numa tentativa de as influenciar com uma opinião acerca da exposição, mas simplesmente porque percebemos que não tinham de facto observado com atenção o que lhes era apresentado. Mas a única resposta que obtivemos foi um “deixem estar”. Disseram-nos que “esta coisa” da interpretação e significado dos museus e das obras era coisa para os artistas, que acreditavam que o que lá estava tinha valor, porque se não tivesse não estaria num museu. Não lhes interessava voltar lá, até porque já tinham dado a “voltinha”.

A comunicação não era a melhor ou o interesse não era muito? Embora discutível, esta ideia de conformismo assustou-me.

Fizeram-me recordar a massa de pessoas que vão a museus com grade renome porque uma indústria cultural e de turismo diz que não os podem perder, que as suas viagens não ficam completas sem lá ir, mesmo que depois não se lembram do que estava exposto.

Existe actualmente uma tendência fácil de perceber em museus como o Louvre em Paris, ou o Rijksmuseum em Amsterdão, onde as filas de entrada são de inúmeras horas de espera. Estará então uma massa de pessoas a visitar museus quase numa tentativa de coleccionar nomes? “Prado, MoMA, Orsay, Museu Van Gogh, National Gallery …”

Paola Antonelli refere que um museu deve ser um espaço de meditação, e que cada museu é definido pelas suas colecções, mas não se terá perdido esta tendência contemplativa para dar lugar a “museus para massas”? Qual o papel de um museu actualmente? Qual a importância de um curador?

O seu texto levanta questões semelhantes e coloca o design no âmbito museológico, afirmando “We are debating the relationship between design, experimental design, art, and the decorative arts. (…) We are questioning our taboos (…) ”. Percebemos aqui que o papel de um curador é, essencialmente, definir critérios e normas, percebendo-se com facilidade que este tem um poder enorme na definição do que o público entendo como arte ou design. As suas noções de museu e devidos desempenhos parecem-me claras e actuais.

Já Peter Weibel fala de “crisis of competence” e coloca a interactividade como o futuro dos museus. Acredito que a interactividade estimule novas experiencias museológicas, e que desperta sentimentos jamais conseguidos num museu. No entanto, e como refere na seguinte frase: “The museum of the future will therefore have animated graphics at its immediate disposal whose main purpose will be to amuse the visitor, rather than to provoke or support critical thought.” (Weibel: 6), estes espaços onde a tecnologia predomina de forma constante torna a experiência museológica mais activa, mas origina uma maior dissipação do acto crítico e contemplativo.

Na minha perspectiva um museu é, antes de tudo, um grande “laboratório” humano. Aqui são representadas de forma histórica, todas as grandes interrogações, preocupações e questões fundamentais de todas as classes sociais e áreas humanas. Porquê querer livrar-se deste exercício de memória que nos caracteriza? Porquê perder um lugar onde nos podemos ver e questionar enquanto cultura, para dar lugar a algo que se assimila a um parque de diversões?

Penso que o caminho a percorrer passa por uma redefinição de valores destes espaços, onde os curadores tem o poder de conseguirem mudar pensamentos numa perspectiva educativa. De uma maneira inteligente e ponderada, podendo ou não aliar a interactividade, podem criar no público uma necessidade de dominar o design e a arte, reflectir o mundo em que vivemos e valorizar a nossa riqueza cultural. Acredito que só assim se consegue um prazer individual e de partilha de conhecimento entre as multidões.

– Antonelli, Paola. “Evolution: The Future of Museum Collections of Design” in Everything design: the collection of the Museum für Gestaltung Zürich. Ostfildern: Hatje Cantz, 2009.

– Weibel, Peter. “The Museum of the Future” In Basar, S.; Miessen, M. (eds.) Did Someone Say Participate? An Atlas of Spatial Practice Cambridge: MIT Press 2006 pp. 173-186

Estudos Contemporâneos em Design // Aula 7

Estamos perante constantes mudanças, a nossa realidade actual é de extrema complexidade e os nossos conceitos sociais, económicos, ou simples aspirações, são diferentes de todos os conceitos que marcavam o século anterior. Mas Anthony Dunne e Fiona Raby, em “Designer as Author”, acreditam que o design não evoluiu e acompanhou estas transformações, havendo uma predominância que ainda agrega o pensamento do século XX.

Numa tentativa de adequar o design às complexas mudanças tecnológicas, políticas, económicas e sociais pelas quais estamos a ser confrontados, os autores apresentam o Design Crítico. Contrário de Design Afirmativo, este procura rejeitar noções que envolvem as massas, reflectir, criticar, e fundamentalmente redefinir as problemáticas que promovem o debate. Apesar do termo existir desde da década de 70, acreditam que é uma acção pouco notória e essencial no sentido do estímulo de novas formas de trabalhar e pensar o design.

Acredita-se, aqui, em atitude ao inverso de método, em propostas de design especulativo que desafiam limitados pressupostos, preconceitos e conceitos já definidos que os produtos desempenham no quotidiano. Penso que esta ocorrência, a de dar um nome a uma posição crítica que põe o sistema em controvérsia, é simplesmente uma forma vantajosa de fazer com que esta actividade se torne mais visível e de fácil discussão e debate público.

Dunne and Raby, Faraday chair, 1994-97

Dunne and Raby, Faraday chair, 1994-97

Mas onde difere da arte? Inicialmente pode parecer muito semelhante em termos de abordagem, mas percebe-se que se trata de design e não de arte quando existe uma ligação de tal forma forte ao quotidiano que quase temos uma noção de mudança das coisas tal como as conhecemos. É como se a arte trata-se de exaltar e ir a extremos enquanto o design procura assemelhar-se ao quotidiano, embora acredite numa relação entre ambos, pois no fundo os dois querem questionar, ponderar e discutir.

Aquilo com que mais concordo e acredito neste assunto é a visão do poder do designer enquanto intermediador, como se fosse o filtro entre política/indústria e sociedade/consumidor, um parceiro entre as diferentes áreas científicas, tecnológicas e humanísticas. Existe aqui um meio de comunicação.

“As the intermediary between the consume and the corporation, the design profession is in a perfect position to host a debate in the form of design proposals about technology, consumerism and cultural value, but first designers will need to develop new communication strategies and move from narratives if production to narratives of consumption, or the aesthetics of use. That is, they will have to shift emphasis from the object and demonstrating its feasibility to the experiences it can offer.”

(Dunne & Raby: 36)

Tal como Dunne e Raby, o colectivo Metahaven tem como objectivo levantar questões sobre as nossas sociedades e estilos de vida, gerando no design espaço para sistemas completamente diferentes do tradicional, onde a linguagem é transformada em forma.

Embora discutíveis quanto às formas finais, em ambos os casos as críticas são feitas através de uma pressuposição intelectual. Aqui a vertente teórica é observada como um fundamento que tanto constitui o próprio mundo, a sociedade, a economia, etc., como o explica, remetendo para uma mudança. Ao observar e ao tentar perceber o objecto de crítica, o utilizador/observador reflecte quase involuntariamente sobre o que lhe é apresentado.

Neste discurso crítico, acredito que alternativas seja o sinónimo para estes olhares diferentes e tangíveis do mundo. O designer tem aqui um campo de exploração de ideias, podendo mesmo estudar ou prever possíveis consequências de determinados assuntos. Mas penso que este campo de estudo está muito fechado e limitado à esfera do design ou museus, não existindo, quase, projectos fora destes limites. Como comunicar fora da praça pública? Pondero que seja necessário chegar mais às pessoas e ao público geral para o design crítico se fazer ouvir.

A partir daqui penso que o maior desafio do design crítico é aliar a teoria à realidade e fazer-se chegar ao maior número de pessoas. Mas apesar das suas debilitações, mesmo trabalhando em noções quotidianas e mais básicas do design, acredito que mergulhar dentro do design crítico e especulativo e não ficar indiferente é discutir, ser activo, investigador e optar por uma noção de adaptação à vida real, por mais pequeno ou “insignificante” que seja a nossa tarefa. Percebemos, acima de tudo, que enquanto designers e cidadãos temos de questionar a maneira como olhamos para as coisas.

Qual é a questão? O que é que aquele objecto quer que eu pense?

– Dunne, Anthony and Raby, Fiona. “Designer as Author” In Ericson, Magnus e Mazé, Ramia (eds.). Design Act: Socially and politically engaged design today – critical roles and emerging tactics. Stockholm: Iaspis, 2011, pp.28-46

– “AutoReply: Modernism: A conversation with Experimental Jetset” in Print, Outubro 2011

– Metahaven. “10 Notes on Speculative Design” in Camuffo, Giorgio e Dalla Mura, Maddalena (eds.) Graphic Design Worlds / Words. Milano: Electa, 2011. pp. 257-271