ECD // COLECÇÕES E MUSEUS

Estudos Contemporâneos em Design // Aula 8

Depois de ler os textos de Paola Antonelli, “Evolution: The Future of Museum Collections of Design”, e de Peter Weibel, “The Museum of the Future”, lembrei-me de imediato de um episódio do Verão passado. Era um daqueles dias de imenso calor onde só se estava bem dentro de espaços fechados e frescos, mas como já andávamos de viagem a algum tempo, as entradas pagas tinham que começar a ser ponderadas.

Estava juntamente com uma amiga no Statens Museum for Kunst, em Copenhaga, e decidimos perguntar a opinião acerca das exposições que estavam lá de momento, de forma a decidir se gastávamos ou não o pouco dinheiro que nos restava nos bilhetes para o museu. Na casa dos quarenta anos, duas senhoras acabam por conversar connosco sobre o museu e as exposições, e sobre uma delas afirmam algo como: “É espantoso! A exposição é sobre o mar e elementos marítimos”. We the People, do artista Danh Vo, era a exposição de que falavam.

Num primeiro momento, e depois de uma visão geral da exposição, ainda pensei que eu não estava a conseguir atingir o objectivo da exposição, pois a minha interpretação estava bem distante da interpretação delas. Depois de me aperceber que a minha amiga estava como eu, deparamo-nos com um filme projectado numa grande parede branca que abordava o processo de trabalho do artista. As peças expostas eram peças isoladas de uma réplica em escala real da Estátua da Liberdade. Tudo era explicado e de fácil entendimento.

À saída confrontamo-las, sugerimos que voltassem lá e que prestassem atenção à projecção, e isto não numa tentativa de as influenciar com uma opinião acerca da exposição, mas simplesmente porque percebemos que não tinham de facto observado com atenção o que lhes era apresentado. Mas a única resposta que obtivemos foi um “deixem estar”. Disseram-nos que “esta coisa” da interpretação e significado dos museus e das obras era coisa para os artistas, que acreditavam que o que lá estava tinha valor, porque se não tivesse não estaria num museu. Não lhes interessava voltar lá, até porque já tinham dado a “voltinha”.

A comunicação não era a melhor ou o interesse não era muito? Embora discutível, esta ideia de conformismo assustou-me.

Fizeram-me recordar a massa de pessoas que vão a museus com grade renome porque uma indústria cultural e de turismo diz que não os podem perder, que as suas viagens não ficam completas sem lá ir, mesmo que depois não se lembram do que estava exposto.

Existe actualmente uma tendência fácil de perceber em museus como o Louvre em Paris, ou o Rijksmuseum em Amsterdão, onde as filas de entrada são de inúmeras horas de espera. Estará então uma massa de pessoas a visitar museus quase numa tentativa de coleccionar nomes? “Prado, MoMA, Orsay, Museu Van Gogh, National Gallery …”

Paola Antonelli refere que um museu deve ser um espaço de meditação, e que cada museu é definido pelas suas colecções, mas não se terá perdido esta tendência contemplativa para dar lugar a “museus para massas”? Qual o papel de um museu actualmente? Qual a importância de um curador?

O seu texto levanta questões semelhantes e coloca o design no âmbito museológico, afirmando “We are debating the relationship between design, experimental design, art, and the decorative arts. (…) We are questioning our taboos (…) ”. Percebemos aqui que o papel de um curador é, essencialmente, definir critérios e normas, percebendo-se com facilidade que este tem um poder enorme na definição do que o público entendo como arte ou design. As suas noções de museu e devidos desempenhos parecem-me claras e actuais.

Já Peter Weibel fala de “crisis of competence” e coloca a interactividade como o futuro dos museus. Acredito que a interactividade estimule novas experiencias museológicas, e que desperta sentimentos jamais conseguidos num museu. No entanto, e como refere na seguinte frase: “The museum of the future will therefore have animated graphics at its immediate disposal whose main purpose will be to amuse the visitor, rather than to provoke or support critical thought.” (Weibel: 6), estes espaços onde a tecnologia predomina de forma constante torna a experiência museológica mais activa, mas origina uma maior dissipação do acto crítico e contemplativo.

Na minha perspectiva um museu é, antes de tudo, um grande “laboratório” humano. Aqui são representadas de forma histórica, todas as grandes interrogações, preocupações e questões fundamentais de todas as classes sociais e áreas humanas. Porquê querer livrar-se deste exercício de memória que nos caracteriza? Porquê perder um lugar onde nos podemos ver e questionar enquanto cultura, para dar lugar a algo que se assimila a um parque de diversões?

Penso que o caminho a percorrer passa por uma redefinição de valores destes espaços, onde os curadores tem o poder de conseguirem mudar pensamentos numa perspectiva educativa. De uma maneira inteligente e ponderada, podendo ou não aliar a interactividade, podem criar no público uma necessidade de dominar o design e a arte, reflectir o mundo em que vivemos e valorizar a nossa riqueza cultural. Acredito que só assim se consegue um prazer individual e de partilha de conhecimento entre as multidões.

– Antonelli, Paola. “Evolution: The Future of Museum Collections of Design” in Everything design: the collection of the Museum für Gestaltung Zürich. Ostfildern: Hatje Cantz, 2009.

– Weibel, Peter. “The Museum of the Future” In Basar, S.; Miessen, M. (eds.) Did Someone Say Participate? An Atlas of Spatial Practice Cambridge: MIT Press 2006 pp. 173-186

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