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ECD (Estudos Contemporâneos em Design)

Estudos Contemporâneos em Design // Aula 9

Ao falar de Design e Democracia penso ser pertinente começar por referir o quanto importante acho que se debata e pense o que é afinal o design na actualidade, num universo onde a democracia intitula-se um governo constituído através da discussão. O termo democracia representa mais do que deveres civis, e um grupo sistemático de maiorias que acha que não precisa realmente de argumentar as suas opções danifica e reduz esta discussão. Passa a ser, então, realmente importante assegurar que a discussão é estimulada, quotidiana e de qualidade, de forma ampla.

Gui Bonsiepe cumpre com este papel ao expor as suas ideias, porém, e como começa por referir em “Design e Democracia” o design e o seu discurso projectual têm limitado o acesso ao debate, distanciando-se da ideia inicial de questionar a actividade projectual. Existem agora modismos e uma necessidade de marcar terreno com argumentos de autoridade e individualismo. O designer passou a representar-se como marca, esquecendo-se das suas qualidades que podem ser usadas em iniciativas de participação democrática.

Nesta perspectiva Bonsiepe apela a uma reavaliação académica. Propõe a criação de alianças fora do sistema formalmente estabelecido que superem a distância entre a ciência e o design, de modo a gerar uma maior proximidade entre as perspectivas científicas e projectuais e superar a ausência actual do design. Não pretende com isto transformar o design em ciência ou numa actividade científica, mas criar uma coesão entre complexidade temática e metodologia, aproveitar o conhecimento científico e reconhecer uma actividade projectual nas actividades científicas. Mas é preciso mais do que uma restruturação académica.

Relacionando democracia e design, o autor fala de uma democracia que dita as relações sociais e que se traduz numa supremacia de mercados. Inserida num contexto neoliberal, e tal como aconteceu no design, diz que “o conceito de democracia sofreu lamentável desgaste nos últimos anos (…)”. (Bonsiepe: 20). Aqui o capitalismo e a produção industrial em massa fazem parte de um contexto que relaciona a natureza e o homem num pensamento condicionante, limitando a sustentabilidade e um desenvolvimento saudável das potencialidades humanas.

Numa busca por soluções o autor fala de um design próprio de posicionamento humanista, onde a heteronomia, subordinação a uma ordem imposta por agentes externos, é reduzida. Acredita que só assim é possível uma consciência crítica que faça frente a este desequilíbrio (antidemocrático) entre centros de poder e os que se submetem a eles.

A sua noção de uso do design como ferramenta de poder e sedução neste discurso manipulador é realmente arrebatadora.

Opondo-se à subsunção do design ao marketing, Bonsiepe observa a prática projectual como uma actividade que está inevitavelmente exposta a contradições (socialmente desejável, tecnicamente exequível, ambientalmente recomendável, economicamente viável, culturalmente defensível), mas diz, e não poderia deixar de concordar, que expor as contradições e esclarece-las ocorre em primeira instância no discurso crítico, e só a crítica e uma atitude discursiva permite realmente mudar e questionar as coisas.

De modo a concluir, o ambiente da prática profissional com as suas pressões e condicionalidades, não permite muitas vezes discutir design, como actua e o que proporciona, mas a nossa tarefa é combater esta tendência.

“Sem um elemento utópico, não será possível construir um mundo diferente e restaria apenas um desejo piedoso e etéreo sem maiores consequências. Sem esse elemento utópico, ainda que residual, não será possível qualquer redução de heteronomia.”

(Bonsiepe: 20)

As instituições académicas e grupos externos ao mercado de trabalho têm um papel essencial na conduta desta iniciativa. 

– BONSIEPE, Gui. Design, cultura e sociedade. Design e Democracia. São Paulo: Blucher, 2011

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Estudos Contemporâneos em Design // Aula 8

Depois de ler os textos de Paola Antonelli, “Evolution: The Future of Museum Collections of Design”, e de Peter Weibel, “The Museum of the Future”, lembrei-me de imediato de um episódio do Verão passado. Era um daqueles dias de imenso calor onde só se estava bem dentro de espaços fechados e frescos, mas como já andávamos de viagem a algum tempo, as entradas pagas tinham que começar a ser ponderadas.

Estava juntamente com uma amiga no Statens Museum for Kunst, em Copenhaga, e decidimos perguntar a opinião acerca das exposições que estavam lá de momento, de forma a decidir se gastávamos ou não o pouco dinheiro que nos restava nos bilhetes para o museu. Na casa dos quarenta anos, duas senhoras acabam por conversar connosco sobre o museu e as exposições, e sobre uma delas afirmam algo como: “É espantoso! A exposição é sobre o mar e elementos marítimos”. We the People, do artista Danh Vo, era a exposição de que falavam.

Num primeiro momento, e depois de uma visão geral da exposição, ainda pensei que eu não estava a conseguir atingir o objectivo da exposição, pois a minha interpretação estava bem distante da interpretação delas. Depois de me aperceber que a minha amiga estava como eu, deparamo-nos com um filme projectado numa grande parede branca que abordava o processo de trabalho do artista. As peças expostas eram peças isoladas de uma réplica em escala real da Estátua da Liberdade. Tudo era explicado e de fácil entendimento.

À saída confrontamo-las, sugerimos que voltassem lá e que prestassem atenção à projecção, e isto não numa tentativa de as influenciar com uma opinião acerca da exposição, mas simplesmente porque percebemos que não tinham de facto observado com atenção o que lhes era apresentado. Mas a única resposta que obtivemos foi um “deixem estar”. Disseram-nos que “esta coisa” da interpretação e significado dos museus e das obras era coisa para os artistas, que acreditavam que o que lá estava tinha valor, porque se não tivesse não estaria num museu. Não lhes interessava voltar lá, até porque já tinham dado a “voltinha”.

A comunicação não era a melhor ou o interesse não era muito? Embora discutível, esta ideia de conformismo assustou-me.

Fizeram-me recordar a massa de pessoas que vão a museus com grade renome porque uma indústria cultural e de turismo diz que não os podem perder, que as suas viagens não ficam completas sem lá ir, mesmo que depois não se lembram do que estava exposto.

Existe actualmente uma tendência fácil de perceber em museus como o Louvre em Paris, ou o Rijksmuseum em Amsterdão, onde as filas de entrada são de inúmeras horas de espera. Estará então uma massa de pessoas a visitar museus quase numa tentativa de coleccionar nomes? “Prado, MoMA, Orsay, Museu Van Gogh, National Gallery …”

Paola Antonelli refere que um museu deve ser um espaço de meditação, e que cada museu é definido pelas suas colecções, mas não se terá perdido esta tendência contemplativa para dar lugar a “museus para massas”? Qual o papel de um museu actualmente? Qual a importância de um curador?

O seu texto levanta questões semelhantes e coloca o design no âmbito museológico, afirmando “We are debating the relationship between design, experimental design, art, and the decorative arts. (…) We are questioning our taboos (…) ”. Percebemos aqui que o papel de um curador é, essencialmente, definir critérios e normas, percebendo-se com facilidade que este tem um poder enorme na definição do que o público entendo como arte ou design. As suas noções de museu e devidos desempenhos parecem-me claras e actuais.

Já Peter Weibel fala de “crisis of competence” e coloca a interactividade como o futuro dos museus. Acredito que a interactividade estimule novas experiencias museológicas, e que desperta sentimentos jamais conseguidos num museu. No entanto, e como refere na seguinte frase: “The museum of the future will therefore have animated graphics at its immediate disposal whose main purpose will be to amuse the visitor, rather than to provoke or support critical thought.” (Weibel: 6), estes espaços onde a tecnologia predomina de forma constante torna a experiência museológica mais activa, mas origina uma maior dissipação do acto crítico e contemplativo.

Na minha perspectiva um museu é, antes de tudo, um grande “laboratório” humano. Aqui são representadas de forma histórica, todas as grandes interrogações, preocupações e questões fundamentais de todas as classes sociais e áreas humanas. Porquê querer livrar-se deste exercício de memória que nos caracteriza? Porquê perder um lugar onde nos podemos ver e questionar enquanto cultura, para dar lugar a algo que se assimila a um parque de diversões?

Penso que o caminho a percorrer passa por uma redefinição de valores destes espaços, onde os curadores tem o poder de conseguirem mudar pensamentos numa perspectiva educativa. De uma maneira inteligente e ponderada, podendo ou não aliar a interactividade, podem criar no público uma necessidade de dominar o design e a arte, reflectir o mundo em que vivemos e valorizar a nossa riqueza cultural. Acredito que só assim se consegue um prazer individual e de partilha de conhecimento entre as multidões.

– Antonelli, Paola. “Evolution: The Future of Museum Collections of Design” in Everything design: the collection of the Museum für Gestaltung Zürich. Ostfildern: Hatje Cantz, 2009.

– Weibel, Peter. “The Museum of the Future” In Basar, S.; Miessen, M. (eds.) Did Someone Say Participate? An Atlas of Spatial Practice Cambridge: MIT Press 2006 pp. 173-186

Estudos Contemporâneos em Design // Aula 7

Estamos perante constantes mudanças, a nossa realidade actual é de extrema complexidade e os nossos conceitos sociais, económicos, ou simples aspirações, são diferentes de todos os conceitos que marcavam o século anterior. Mas Anthony Dunne e Fiona Raby, em “Designer as Author”, acreditam que o design não evoluiu e acompanhou estas transformações, havendo uma predominância que ainda agrega o pensamento do século XX.

Numa tentativa de adequar o design às complexas mudanças tecnológicas, políticas, económicas e sociais pelas quais estamos a ser confrontados, os autores apresentam o Design Crítico. Contrário de Design Afirmativo, este procura rejeitar noções que envolvem as massas, reflectir, criticar, e fundamentalmente redefinir as problemáticas que promovem o debate. Apesar do termo existir desde da década de 70, acreditam que é uma acção pouco notória e essencial no sentido do estímulo de novas formas de trabalhar e pensar o design.

Acredita-se, aqui, em atitude ao inverso de método, em propostas de design especulativo que desafiam limitados pressupostos, preconceitos e conceitos já definidos que os produtos desempenham no quotidiano. Penso que esta ocorrência, a de dar um nome a uma posição crítica que põe o sistema em controvérsia, é simplesmente uma forma vantajosa de fazer com que esta actividade se torne mais visível e de fácil discussão e debate público.

Dunne and Raby, Faraday chair, 1994-97

Dunne and Raby, Faraday chair, 1994-97

Mas onde difere da arte? Inicialmente pode parecer muito semelhante em termos de abordagem, mas percebe-se que se trata de design e não de arte quando existe uma ligação de tal forma forte ao quotidiano que quase temos uma noção de mudança das coisas tal como as conhecemos. É como se a arte trata-se de exaltar e ir a extremos enquanto o design procura assemelhar-se ao quotidiano, embora acredite numa relação entre ambos, pois no fundo os dois querem questionar, ponderar e discutir.

Aquilo com que mais concordo e acredito neste assunto é a visão do poder do designer enquanto intermediador, como se fosse o filtro entre política/indústria e sociedade/consumidor, um parceiro entre as diferentes áreas científicas, tecnológicas e humanísticas. Existe aqui um meio de comunicação.

“As the intermediary between the consume and the corporation, the design profession is in a perfect position to host a debate in the form of design proposals about technology, consumerism and cultural value, but first designers will need to develop new communication strategies and move from narratives if production to narratives of consumption, or the aesthetics of use. That is, they will have to shift emphasis from the object and demonstrating its feasibility to the experiences it can offer.”

(Dunne & Raby: 36)

Tal como Dunne e Raby, o colectivo Metahaven tem como objectivo levantar questões sobre as nossas sociedades e estilos de vida, gerando no design espaço para sistemas completamente diferentes do tradicional, onde a linguagem é transformada em forma.

Embora discutíveis quanto às formas finais, em ambos os casos as críticas são feitas através de uma pressuposição intelectual. Aqui a vertente teórica é observada como um fundamento que tanto constitui o próprio mundo, a sociedade, a economia, etc., como o explica, remetendo para uma mudança. Ao observar e ao tentar perceber o objecto de crítica, o utilizador/observador reflecte quase involuntariamente sobre o que lhe é apresentado.

Neste discurso crítico, acredito que alternativas seja o sinónimo para estes olhares diferentes e tangíveis do mundo. O designer tem aqui um campo de exploração de ideias, podendo mesmo estudar ou prever possíveis consequências de determinados assuntos. Mas penso que este campo de estudo está muito fechado e limitado à esfera do design ou museus, não existindo, quase, projectos fora destes limites. Como comunicar fora da praça pública? Pondero que seja necessário chegar mais às pessoas e ao público geral para o design crítico se fazer ouvir.

A partir daqui penso que o maior desafio do design crítico é aliar a teoria à realidade e fazer-se chegar ao maior número de pessoas. Mas apesar das suas debilitações, mesmo trabalhando em noções quotidianas e mais básicas do design, acredito que mergulhar dentro do design crítico e especulativo e não ficar indiferente é discutir, ser activo, investigador e optar por uma noção de adaptação à vida real, por mais pequeno ou “insignificante” que seja a nossa tarefa. Percebemos, acima de tudo, que enquanto designers e cidadãos temos de questionar a maneira como olhamos para as coisas.

Qual é a questão? O que é que aquele objecto quer que eu pense?

– Dunne, Anthony and Raby, Fiona. “Designer as Author” In Ericson, Magnus e Mazé, Ramia (eds.). Design Act: Socially and politically engaged design today – critical roles and emerging tactics. Stockholm: Iaspis, 2011, pp.28-46

– “AutoReply: Modernism: A conversation with Experimental Jetset” in Print, Outubro 2011

– Metahaven. “10 Notes on Speculative Design” in Camuffo, Giorgio e Dalla Mura, Maddalena (eds.) Graphic Design Worlds / Words. Milano: Electa, 2011. pp. 257-271

Exercício 1 // Estudos Contemporâneos em Design // Ana Beatriz Marques // Melany Abade

As bases teóricas deste projecto têm como referência a perspectiva de Gui Bonsiepe sobre Design e Democracia[1]. Neste capítulo, o autor começa por contextualizar histórica e socialmente a prática do design, tecendo largas críticas ao seu estado actual. Tais críticas devem-se à “expansão semântica horizontal” e à “redução semântica vertical” do conceito design. Desta forma, a prática do design tende a afastar-se cada vez mais da “solução inteligente de problemas” aproximando-se do obsoletismo rápido próprio do styling. Com vista a um reposicionamento do design, numa expansão semântica vertical do seu significado, o autor defende uma aproximação entre a actividade artística e a actividade científica, que se materializa na valorização da actividade projectual, e o seu ensino académico, em áreas não necessariamente ligadas ao design. Por outro lado, “o design deve recorrer a conhecimentos científicos quando a temática o exige” (Gui Bonsiepe, 2011, p.19).

No que concerne à democracia, o autor começa por clarificar a sua definição neoliberal, segundo a qual “a democracia é sinonimo da predominância do mercado como instancia suprema para regular as relações sócias e económicas.”. Uma interpretação mais humana, e menos capitalista apresenta o autor, para quem democracia representa a possibilidade da participação dos dominados, no sentido da redução de heteronomia ou redução da subordinação a uma ordem imposta por agentes externos, fomentando a autonomia.

Seguindo o pensamento iluminista que caracteriza o pensamento do autor, com vista à redução da heteronomia, Bonsiepe enuncia o significado de Humanismo, segundo o filósofo Edward Said, “Humanismo é o exercício das nossas competências da linguagem para compreender, reinterpretar e lidar com os produtos da linguagem na história, em outras línguas e noutras tradições históricas” (Edward W. Said, 2003, p.28).

Bonsiepe transporta as considerações sobre humanismo ao design, na forma de humanismo projectual. Assim, “O humanismo projectual seria o exercício das capacidades projectuais para interpretar as necessidades de grupos sociais e elaborar propostas viáveis, emancipatórias, em forma de artefactos instrumentais e artefactos semióticos”.

Dado o carácter emancipatório, o humanismo projectual destina-se sobretudo a grupos sociais dominados, excluídos ou de alguma forma, descriminados, propondo-se à redução da heteronomia através da formação de uma consciência crítica face ao desequilíbrio entre os centros de poder e os que são submetidos a eles.

Na manutenção destes centros de poder destacam-se o papel do mercado, do design e da tecnologia. O mercado é, segundo o economista Kenneth Galbraith, sinonimo de capitalismo, por outro lado o design constitui uma ferramenta de poder e estratégia ao seu dispor, através da projecção de aparências em produtos e artefactos semióticos, renovando constantemente a sua imagem. A tecnologia abrange os artefactos e processos de produção em massa, fundamentais à industrialização. Por sua vez, a industrialização é responsável pela democratização de produtos e serviços capazes de melhorar a vida quotidiana nos diferentes aspectos (saúde, educação, transporte, etc.). Pelo contrário, a privatização é sinónimo de desdemocratização, os recursos sociais são transferidos à esfera de interesses particulares financeiros. Conclui-se desta forma, que o design é uma arma de estratégia que pode ser usada no sentido de produzir autonomia ou dependência (heterónomia).

Enquanto ferramenta de poder, de que forma pode o Design contribuir para a democratização de serviços, reduzindo a heteronomia de classes excluídas ou “desfavorecidas economicamente”?

No livro  Design Act: Socially and politically engaged design today, o design social / crítico / humanitário / activista / relacional (estas variantes são referidas como sinónimos) surge como tema principal, responsável por questionar os campos de acção nesta área. O design humanitário visa, como foi anteriormente referido, uma redução da heteronomia ou emancipação das normas e tradições opressivas.

Neste campo, o conceito “Participação” tem dominado o discurso, remetendo para o Movimento Escandinavo de Design Participativo de 1970. Originalmente, este movimento surgiu orientado para a democratização no local de trabalho, aqui “participação” referia-se à tomada de decisões conjuntamente numa base de igualdade.

A organização social e os processos que fazem parte da vida quotidiana de uma comunidade são, actualmente, objecto de estudo do design, cuja função é “confrontar as relações de poder e influência através da identificação de novos termos e temas de contestação e novas trajectórias de acção” (Magnus Ericson e Ramia Mazé, 2011, p.1).

Neste sentido, o Design pode ter cariz político, já que estuda e questiona a constituição e organização social, bem como as relações de poder dominantes. As propostas do Design Participativo / Humanitário / Social visam uma democratização de serviços básicos (como o transporte ou a educação) através da redução de heteronomia; bem como um aumento do poder da comunidade – envolvimento dos utilizadores directos (trabalhador, cidadão, utente) ao longo do desenvolvimento de um projecto, desde a definição do problema à avaliação das soluções propostas.


[1] : Capítulo do livro Design, Cultura e Sociedade, de Gui Bonsiepe.

Proposta

A deterioração do serviço de transportes públicos

As greves e a eminente privatização dos transportes públicos, nomeadamente o Metro de Lisboa representam alem da degradação dos transportes públicos, uma limitação à liberdade dos seus utilizadores, a subordinação a uma ordem imposta por agentes externos, determinada pela organização social, pelas decisões políticas e pelas relações de poder que a constituem, e na qual são pouco activos. Nas palavras de Gui Bonsiepe:

“a democracia vai muito além do direito formal de votar, assim como o conceito de liberdade vai muito além da possibilidade de escolher entre centenas de modelos de telefones ou uma viagem a Orlando para visitar a Disneylândia, ou a Paris para visitar o Museu do Louvre.”

(Gui Bonsiepe, 2011, p.20)

A democracia deve privilegiar a participação de cada indivíduo, não deve cingir-se apenas ao direito de voto, deve permitir uma participação mais activa, nomeadamente nas decisões governamentais que dizem respeito a todos, a questão dos transportes públicos é apenas um dos muitos temas que deveriam ser discutidos clara e publicamente.

Segundo o jornal Público, do dia 18-11-2013, desde que o governo tomou posse em Junho de 2011, houve quase 500 dias de greve nos transportes, tendo-se registado o período mais intenso em 2012, onde se contabilizaram 318 dias de paralisações, dos quais 14 com duração de 24 horas. Tendo ainda como fonte o mesmo jornal do dia 17-12-2013, a Metro de Lisboa irá sofrer greves uma vez por semana a partir de Janeiro de 2014.

Entre os motivos de greve, os trabalhadores contestam os cortes salariais que deverão ser agravados, passando a afectar salários a partir dos 600 euros; ainda segundo o mesmo jornal do dia 19-12-2013, são também contestadas as medidas do decreto-lei 133-2012, que “pretende abrir as portas à concessão da empresa”, reduzindo os trabalhadores, bem como os seus direitos e a sua remuneração, levando-os a uma situação incomportável, medidas que parece ter como único objectivo tornar a empresa mais apetecível para uma futura privatização.

Neste sentido, segundo notícia avançada pelo Publico do dia 25-09-2013, a concessão ou privatização de empresas do estado, como a Metro Lisboa deverá ser concretizada este ano, 2014, com o objectivo de reequilibrar o resultado operacional do sector do transporte, exigência feita pela Troika, porém este processo está a decorrer “sem articulação com as autarquias e sem que se perceba exactamente os moldes em que tal vai ser feito”.

Se por um lado a privatização se justifica a nível económico, já que empresas como a Metro Lisboa ou a Carris têm vindo a acumular dívida e representam anualmente prejuízo para o Estado, a nível social esta medida põe em causa um interesse público fundamental como é o transporte. Depois da privatização, além dos cortes salariais e dos despedimentos deverá ocorrer um aumento do preço nos transportes, e os passes que “de sociais, já só têm o nome” tornar-se-ão para muitas pessoas incomportáveis. Também a nível ecológico, deverão existir consequências, já na impossibilidade de pagar o metro, muitas pessoas ver-se-ão obrigadas a recorrer a outros meios de transporte como o carro, devendo aumentar o número de viaturas a circular na cidade.

Neste contexto social, torna-se necessária a “formação de uma consciência crítica face ao desequilíbrio entre os centros de poder e os que são submetidos a eles”.

Jenny Holzer, “Private Property Created Crime”, 1985. Times Square, New York

Jenny Holzer, “Private Property Created Crime”, 1985. Times Square, New York

 Desta forma, o design deve questionar a constituição e organização social, fomentando uma consciência critica na sociedade, ao mesmo tempo que procura soluções que produzam autonomia, e que não causem novas dependências.

Barbara Kruger, “Untitled (Your comfort is my silence)”, 1981

Barbara Kruger, “Untitled (Your comfort is my silence)”, 1981

Projecto

Dada a redução da autonomia dos utilizadores do Metro Lisboa potenciada pelas greves e por uma eminente privatização, este projecto visa a formação de uma consciência crítica face ao desequilíbrio entre os centros de poder e os que são submetidos a eles. Neste sentido, são componente do problema, a Metro de Lisboa, o estado, o orçamento de estado para 2014, os trabalhadores e utilizadores deste serviço (público alvo), a greve, e a privatização.

Numa tentativa de enfatizar o descontentamento e consciencializar os utentes do metro de Lisboa, o projecto passa pela oferta de “cheques”, onde o valor oferecido corresponde ao valor total do dinheiro perdido com as greves por um utente com passe social durante um ano civil. Estes cheques seriam entregues por nós, na via pública, junto às entradas do metro.

Tarifas dos passes sociais para 2014:

Navegante Urbano – 35,65 €, durante um ano equivale aproximadamente a 1,17 €/dia

Navegante Rede – 42,00 €, durante um ano equivale aproximadamente a 1,38 €/dia

(Consultar o tarifário completo do METRO)

Número de greves:

As previsões são de uma greve por semana. Supondo que estas greves são gerais e tendo em conta que um ano tem 52 semanas, estão previstas então 52 greves, ou seja, 52 dias pagos pelos utilizadores que não vão poder ser usufruídos. Então, um utente perde no ano de 2014:

Navegante Urbano – 60,84 €

Navegante Rede – 71,76 €

(Estes resultados são suposições e servem como exemplo do que se pretende realizar)

No inverso deste “cheque” é apresentada uma fundamentação explicativa dos seus objectivos e propósitos.

Ao materializar esta ideia e conceito monetário, pretende-se confrontar os utilizadores deste transporte, e alertar para a necessidade de uma rápida intervenção.

O público-alvo são todos os utilizadores deste meio de transporte, bem como os seus trabalhadores. Dada a abrangência do público-alvo, consideraremos o público adulto, sem restringir ninguém, mas pretendemos dar especial atenção aos utentes do passe social.

A crítica poderá evoluir, no âmbito da UC de Produção em Novos Media, para uma análise da história do metro, focando os intervenientes na sua gestão, e averiguando qual o seu contributo, bem como a sua responsabilidade na situação actual, tornando estas informações públicas e claras através de uma plataforma digital.

A partir de um conhecimento mais aprofundado sobre as falhas no processo de gestão do Metro, torna-se mais fácil encontrar alternativas à sua concessão e sobretudo à privação do transporte público.

Sites consultados sobre a greve nos transportes (acedidos no dia 5 de Janeiro de 2014):

http://www.publico.pt/economia/noticia/houve-quase-500-dias-com-greves-nos-transportes-desde-que-o-governo-tomou-posse-1612991

http://www.publico.pt/economia/noticia/metro-de-lisboa-vai-parar-uma-vez-por-semana-a-partir-de-janeiro-1616668

http://www.publico.pt/economia/noticia/trabalhadores-do-metro-de-lisboa-em-greve-circulacao-parada-ate-as-10h00-1616875

http://www.dn.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=3593009&seccao=Sul

http://www.publico.pt/economia/noticia/sergio-monteiro-chamado-ao-parlamento-por-causa-dos-transportes-publicos-1607002

http://www.publico.pt/economia/noticia/sergio-monteiro-chamado-ao-parlamento-por-causa-dos-transportes-publicos-1607002

http://rr.sapo.pt/informacao_detalhe.aspx?fid=25&did=82320

Referências bibliográficas:

BONSIEPE, Gui. Design, Cultura e Sociedade. São Paulo: Blucher, 2011. 

ERICSON, Magnus e MAZÉ, Ramia (eds.). Design Act: Socially and politically engaged design today – critical roles and emerging tactics. Stockholm: laspis, 2011. 

MAU, Bruce & the Institute Without Boundaries. “Massive Change”. New York: Phaidon Press, 2004.

Estudos Contemporâneos em Design // Aula 6

Embora não pareça, numa primeira instância, existir grande relação entre o discurso de Chimamanda Ngozi Adichie em “The danger of a single story” e o design, estes não poderiam estar mais abraçados e conectados.

Achei comovente e de extrema sensibilidade as palavras da escritora, e penso ser um excelente ponto de partida para diversas discussões de importância social e global. E como vejo o design numa perspectiva social e global, que conecta pessoas, recursos e locais, vi em Chimamanda uma “designer”, uma pessoa que não acredita em histórias únicas e estereótipos, alguém que procura compreender o mundo e lidar com as diferenças culturais como um foco positivo, e desta forma projectar para pessoas reais.

John Thackara, em “Plano B – O Design e as Alternativas Viáveis em um Mundo Complexo”, afirma que “para mudar a forma como fazemos as coisas, precisamos mudar a forma como as percebemos”. (Thackara, p.18) É fácil encontrar semelhanças neste excerto com o discurso de Chimamanda. Projectar para pessoas reais requer conhece-las, percebe-las numa perspectiva própria e única, e não através de histórias estereotipadas que roubam a venerabilidade e criam distância entre pessoas. Conhecer pessoas reais é trabalhar para problemas reais.

Como faz igualmente referência o autor neste livro, por vezes repetitivo, estamos a viver numa rotina onde inovação parece já não ter nada de novo, onde estamos focados numa tecnologia que dá mais importância aos meios do que aos fins. Que apesar da população do planeta ter aumentado bruscamente, continuamos a utilizar a tecnologia como único recurso, a insistir numa procura desmedida por equipamentos e serviços que tentam poupar a mão-de-obra, desvalorizando o Homem e entregando-o aos sistemas. Parece-me que passou a existir um desrespeito pelo que as pessoas são capazes de fazer e a tecnologia não é.

Nesta perspectiva Thackara propõe um Plano B, uma transição de inovação orientada pela ficção científica para uma inovação orientada pela ficção social.

Fala-se então de Design Social, mas já não deveria de ser o termo design um pressuposto social? Parece existir cada vez mais uma necessidade de criar novos termos para uma disciplina, mas não seria essencial repensá-la? Penso que o próprio design não precisa de excessivas categorias, pois a sua essência em si já é amplamente alargada e global, e neste caso em específico, um pensamento orientado para sistemas sociais integrados. Mas se a utilização destes termos promove novas discussões e focos de interesse, não me contraponho.

Como se observa com os exemplos fornecidos em “States of Design 10: Social Design”, este foco de estudo procura uma globalização real e sustentável, onde se pensa menos em coisas e mais em pessoas. Aliar a tecnologia? Talvez, mas nunca esquecer que design é sobre pessoas, e que elas também podem contribuir. É possível gerar sistemas completos se todas as pessoas que os utilizarem, incluindo os designers, se unirem de forma colaborativa e atenta às diferenças culturais.

Voltado ao ponto inicial deste texto, para projectar para uma comunidade é preciso conhecer mais do que uma história. Várias histórias vão permitir perceber o que queremos mudar, várias histórias vão dar soluções.

– Adichie, Chimamanda: The danger of a single story TEDTalk

– Thackara, John. Plano B – O Design e as Alternativas Viáveis em um Mundo Complexo, São Paulo: Saraiva, 2008 pp. 11-39

– Antonelli, Paola: “States of Design 10: Social Design” in domus 22 Fevereiro 2012

Estudos Contemporâneos em Design // Aula 5

Ao som das locomotivas, a Primeira Revolução Industrial caracteriza-se pela passagem do manufacturado para o mecânico. Já a Segunda Revolução Industrial cria aquilo a que hoje chamamos de fábricas, linhas de montagem, e consumo em massa, aliando a produção mecanizada ao digital. Desde então que os avanços tecnológicos tornam-se parceiros do Homem na sua árdua tarefa de aliar as suas potencialidades a ferramentas. Mas, tem-se vindo a verificar uma tendência inversa ao processo industrial de produção em massa, e isto porque surgiram ferramentas como as impressoras 3D. Passa a existir, assim, uma fabricação individual, fabrico aditivo, onde o problema da “economia de escala” deixa de existir e faz com que apareça uma nova revolução industrial, a terceira.

Numa altura em que o mundo se confronta constantemente com inovações e avanços tecnológicos, desafios e soluções, são cada vez mais as probabilidades de estarmos imersos numa nova revolução onde cada um pode tornar-se autor/produtor. Qual será então o papel do designer neste novo conceito de produção? Não será necessário redefinir os laços entre o design e uma indústria dominadora e de consumo?

É óbvio a dificuldade de previsão das consequências deste fenómeno, tanto economicamente, socialmente ou ecologicamente, mas penso que é comum a ideia de ponderação e reflexão. Nesta perspectiva a exposição “Adhocracy”, da curadoria de Joseph Grima e inserida na Bienal de design em Istambul, é sobre criar coisas a partir de um novo conceito de autoria, e visa explorar as possibilidades do design na indústria, nesta nova revolução, e servir como ponto de partida para esta consideração.

O termo, da autoria de Alvin Tofle, faz referência a uma nova ordem de organização que, recorrendo a um trabalho colaborativo, tenta simplificar qualquer processo, procurando novas oportunidades e soluções para o controlo e dominação de grupos económicos ou de poder. Pretende-se aqui criar novos laços culturais e colocar de parte hierarquias. O propósito é unir as pessoas e o meio industrial, e na área do design, o designer, o fabricante e o cliente/consumidor.

A exposição propõe mostrar uma criatividade individual aliada a um novo processo projectual, onde o designer não assume o total controlo da forma e aspecto final de um determinado objecto. Com esta ideia de auto criação, cooperação e organização presume-se que ao fornecer as ferramentas certas à população, esta será criativamente mais livre e deixará de lidar com problemas de poder anteriormente já referidos ou desperdícios materiais e ecológicos resultantes da produção em massa.

Gosto de observar este conceito como uma forma de activismo político por parte do design, assim como um acto crítico sobre o termo privilegiado de “autor/criador”, onde o design é centrado num indivíduo enquanto criador e não num grupo de utilizadores que precisa de satisfazer certas necessidades, propondo um conceito de design colaborativo. Mas penso que este paradigma não é perfeito, acarretando consequências negativas. Esta total democratização no acesso aos processos projectuais e de produção pode afectar o estatuto, e mesmo a sobrevivência, do designer. Afinal, o design enquanto disciplina surgiu com o propósito de responder a determinadas necessidades, estando o designer qualificado para corresponder a pedidos que outros não deveriam ser capazes de responder com total eficiência.

Se este modelo é totalmente viável para o futuro é questionável, mas penso que cumpre com o seu principal objectivo (que penso ser indispensável actualmente): ser antidogmático, desafiando a economia, o design e o quotidiano com modelos não convencionais que aliam a tradição à tecnologia.

“A third industrial revolution – A special report on manufacturing and innovation” in The Economist, 21 de April 2012

– Grima, Joseph “A Brief History of Adhocracy” in Adhocracy, Istanbul: IKSV, 2012

– Morozov, Evgeny “The Perils of Perfection” in The New York Times, 2 de Março 2013

Estudos Contemporâneos em Design // Aula 2

Ao assistir ao documentário de Adam Curtis, dividido numa série de três filmes, apercebi-me do quanto está intrínseco em nós a realidade da tecnologia, da máquina, mas principalmente a ideia de que o computador pode estabilizar um mundo supostamente não questionável.

Ao mesmo tempo que entendo que é essencial reflectir seriamente nesta temática, e se é ou não possível conseguir abstrair-se de uma corrente desmedida entre homem e máquina, apercebo-me que sou facilmente levada pelo forte visual e discurso do próprio realizador, o que acaba por ser controverso, visto que Adam Curtis finda a “manusear” o público para uma chamada de atenção de uma manipulação global.

Todo o ritmo ousado de imagens e sons, presente ao longo de todo o documentário, leva-nos para um mundo onde o recurso a máquinas e ao ciberespaço da internet é visto como uma solução aos prolemas das sociedades actuais. Aqui, o documentalista apresenta casos reais de investigadores que dizem acreditar na ideia utópica de que o recurso a estas máquinas e plataformas globais libertam a sociedade de um controlo, oferecendo liberdade.

No primeiro filme faz referência à filósofa Ayn Rand, que através de uma ideologia e da influência sobre Alan Greenspan consegue influenciar não são um grupo de seguidores mas também mercados financeiros, o que parecia irrealizável. Fazendo também referência à presidência de Bill Clinton, acaba por atribui a elevação das máquinas aos empreendedores de Silicon Valley. Mas na minha opinião, acaba por perder certa credibilidade ao debruçar-se de forma contínua em falhas pessoais dos alvos, atingindo essencialmente Alan Greenspan.

Nas cerca de três horas de filme é fácil questionarmo-nos e reflectir sobre o modo como o Homem é puxado a agir sob a influência de uma força tecnológica, uma invenção dele próprio e que o torna, sem ele mesmo se aperceber disso, prisioneiro dele mesmo, não o deixando livre de dogmas e preconceitos, fazendo com que pareça inalcançável o poder de livre vontade e arbítrio. Mas penso que o ponto crucial deste documentário está no seguinte pressuposto: acreditar-se que existem semelhanças deste sistema com a própria natureza, ao ponto de parecer haver uma reprodução invulgar da natureza pela máquina.

Desta forma, e fazendo-me lembrar a colectânea “Zeitgeist” de Peter Joseph, “All Watched Over by Machines of Loving Grace” parece aparecer como um alarme cintilante.

Parece existir até agora um lado bastante negro da implementação da tecnologia nas nossas sociedades, mas existem sempre dois lados no que toca a consequências, o positivo e o negativo, sendo fundamental tentar perceber de que forma se pode chegar a uma harmonia. Tal como na natureza ou num ecossistema, qualquer que seja o organismo, este tem o poder de alterar a estrutura inicial do sistema, mas cabe aos restantes organismos conseguirem se unir e encontrar um equilíbrio natural.

Não será então importante assumir a imperfeição do Homem, assim como os seus erros, e tentar encontrar um equilíbrio?