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Projecto I

A exposição INTER[IN]VENÇÃO exposta na Fundação Eugénio de Almeida, Évora, é o resultado de uma selecção de obras que constituem a colecção do ZKM | Center for Art and Media  Karlsruhe. Como o próprio nome enuncia, este centro está direccionado para a criação audiovisual e novos media, sendo uma colectânea de artistas e obras do panorama da criação audiovisual e da media art mundial. É considerado como o mais importante centro de arte e tecnologia mundial.

O jogo de palavras, evidente no nome da exposição, cria uma rápida percepção dos focos temáticos da exposição, intervenção e invenção. Confrontado com trinta e três obras de artistas pioneiros e de grande destaque na media art, que redefinem tanto as relações dos nossos meios sensoriais entre si como as relações dos nossos meios sensoriais com o mundo, o público é obrigado a cumprir um papel activo. Aqui as obras deixam de ter um carácter contemplativo associado a museus, e passam a exigir do público uma participação.

Paul Sermon, “Telematic Vision”, 1993; 2009

Existe, aqui, uma clara sensação de que o avanço tecnológico e todo o seu desenvolvimento afectou a forma como percepcionamos e construímos o mundo, constituindo um ponto de partida para uma abordagem teórica da teoria dos media.

O próprio Peter Weibel, director do ZKM, diz que a exposição baseia-se “em teorias dos media históricas e contemporâneas, ou seja, numa teoria materialista dos aparelhos mediáticos e numa organologia dos media, mas também em aspectos ideológicos, efeitos sociais e políticos e no impacto dos media.” (Weibel e Gianneti, 2013, p.20)

O teórico e artista observa, tanto na palestra realizada no dia da inauguração, 29 de Novembro, como no texto “The Post-Medial Condition”, a mecânica como um ponto de partida para o mundo em que vivemos actualmente. Relacionando-se com o discurso de Marshall McLuhan, é evidente a ideia da mecânica enquanto extensão do homem, que acrescenta e auxilia, afirmando também que o lugar das artes mecânicas foi conquistado pelos meios de comunicação.

No texto de 2005, Peter Weibel garante o sucesso intrínseco dos novos meios de comunicação tecnológicos sob a influência que praticam sobre os antigos media como a pintura ou a escultura. Quer dizer com isto, que este sucesso permitiu estabelecer novas abordagens aos antigos media da arte, e assim mante-los vivos, impondo-lhes um processo de mudança radical.

Seguindo esta lógica, os novos media não se assumem apenas como uma extensão do mundo da arte, mas alteram toda a sua estrutura, “(…) the new media were not only a new branch on the tree of art but actually transformed the tree of art itself.”. (Weibel, 2005, p.11)

É fácil perceber este conceito tendo como base o exemplo do autor referente à história da pintura e da sua relação com a fotografia. Weibel diz que a fotografia, através de uma representação mais fiel e realística do mundo, torna-se o principal rival da pintura, obrigando este meio a questionar-se e a redefinir-se. Desta forma, a fotografia permite que a pintura modifique a sua área de intervenção, explorando novos elementos e potencialidades, atingindo o auge com a pintura abstracta, na primeira metade do séc. XX.

Mais tarde, mesmo quando se volta de novo para a representação da imagem do objecto, a pintura tem como influência a fotografia. Em movimentos como a Pop Art, passa a existir uma preocupação voltada para a representação objectiva da realidade, deixando para segundo plano a exploração de outras potencialidades.

O surgimento de programas digitais e de manipulação de imagem trazem, também, à fotografia e à pintura novos impulsos transformativos, “Not only has the western image canon but of course also the sculpture program changed through the influence of technological media”. (Weibel, 2005, p.12)

Peter Weibel confronta-nos, então, com uma mudança de paradigmas que se relaciona com o enquadramento da teoria dos media. O aparecimento desta nova vertente artística, a new media art, que origina uma crise na representação e a desaparição do autor, cria, posteriormente um renascer pelo interesse do autor pela obra, acrescentando-lhe interactividade. Passa a existir, deste modo, uma integração do público com a obra e o autor.

As fronteiras são ultrapassadas, e uma liberação chega com novas áreas de exploração e conteúdos. Mas o autor questionas-nos com uma dúvida fundamental. Mais importante que os próprios novos media, não será a influência que exercem nos antigos media, assim como o seu efeito actual?

Penso que o próprio Peter Weibel acaba por responder de forma positiva ao seu pressuposto com nas suas obras artísticas, assim como o confirmamos ao longo do texto. Esta exposição, INTER[IN]VENÇÃO, é igualmente um exemplo do enorme esforço dos novos media por engendrar uma força transformativa do meio artístico.

A partir daqui Weibel afirma que todas as disciplinas artísticas se transformam pela acção dos media. Aplicando a ciência a esta ideia de arte, o computador surge já não com uma ferramenta do domínio dos cientistas, que procuram respostas e ofertas perfeitas através de cálculos digitais, mas como uma ferramenta essencial ao processo criativo.

Afectada pelo computador, a criatividade humana é confrontada com a presença do computador, que vais mais além no papel de ferramenta, tornando-se o próprio criador de arte. Com este feito passa-se a assistir a uma criatividade e arte simulada, chegando-se ao estado post-medial definido por Peter Weibel, onde este afirma que os antigos media são explorados e ampliados no que diz respeito às suas capacidades, tornando-os mais eficientes, e nunca os substituindo.

Seguindo este conceito post-medial, o autor delega uma noção de superação, que advém do facto de todas as experiências estéticas se tornarem experiências do âmbito dos media.

E segundo Weibel, de forma a melhor entender esta circunstância, existem duas fases distintas da condição post-medial da arte. Declara, em primeira instância, a “equality of the media” que enquanto reconhecimento artístico, é definida por uma procura de igualdade e demonstração das potencialidades específicas dos meios.

A segunda fase, “the blending of the media”, faz correspondência a uma fusão dos media e das suas potencialidades, que tem por objectivo obter inovações significativas. Aqui um media procura requalificar-se a partir de um outro media, fazendo com que a combinação de ambos resulte em congregações inovadoras. (Weibel, 2005, p.14)

“Interactive Plant Growing”, 1992, Christa Sommerer e Laurent Mignonneau

“Interactive Plant Growing”, 1992, Christa Sommerer e Laurent Mignonneau

Neste sentido, obras como “Interactive Plant Growing” (1992), de Christa Sommerer e Laurent Mignonneau, ou “Beobachtung der Beobachtung: Unbestimmtheit” (1993), de Peter Weibel, são exemplos de como podemos, através de dispositivos e ambientes gerados pela junção da arte com os novos media, estimular vários dos nossos sentidos, sempre acentos na preocupação por uma participação activa entre obra e público.

“Beobachtung der Beobachtung: Unbestimmtheit”, 1993, Peter Weibel

“Beobachtung der Beobachtung: Unbestimmtheit”, 1993, Peter Weibel

Com esta mesma intenção participativa, e assente na ideia final do autor que faz referência a um media universal e não a um dominante, a mais recente etapa do projecto (00,00), Soundscape (00,00), realizado em parceria com a Ana Beatriz Marques, vem redefinir os objectivos de um posicionamento face à simulação. Concentra-se na ideia de Peter Weibel de que os próprios novos media apresentam possibilidades, e oferecem novas possibilidades aos antigos media, ou seja, que os novos media oferecem formas totalmente novas de reproduzir conceitos antigos e que o resultado de uma união entre todos os media reside numa produção artística.

Tendo o som como elemento de captação sensorial da realidade, através de novas ferramentas e suportes, passa a existir uma redefinição dos sentidos e representações, e consequentemente, novas interpretações e percepções.

Serão, assim, descobertas novas realidades ocultas através de um mapeamento do som e da abstracção dos estímulos.

Continuando com a teoria inicial de simulacro, que tem por base o poema de José Luis Borges e a obra “Simulacros e Simulação” (1981), de Jean Baudrillard, o projecto está direccionado para a cidade de Lisboa.

Este mapa sonoro constituído a partir de um mapa geográfico posiciona-se de forma crítica para os ambientes da cidade, criando estranhas relações entre homem e natureza. Esta hiper-realidade sonora fará o participante questionar-se sobre o sentido que constitui a abstracção do nosso quotidiano, assim como os seus sentidos.

Referências bibliográficas:

WEIBEL, Peter. “The Post-media Condition”, 2005.

WEIBEL / GIANNETI, Peter / Cláudia. INTER[IN]VENÇÃO Coleção ZKM | Karlsruhe, in Inter[in]venção, Coleção ZKM | Karlsruhe, Fundação Eugénio de Almeida, 2013

THE END OF BOOKS (Robert Coover) // USING COMPUTERS (A DIRECTION FOR DESIGN) (Terry Winogrand / Fernando Flores)

The Third Hand, Stelarc, 1980, performance art

The Third Hand, Stelarc, 1980, performance art

Torna-se recorrente, a partir da década de 80, questionar ou descrever de que forma o homem se adequa à omnipresença da tecnologia, onde os computadores e a inteligência artificial tornam-se uma parte importante da vida de todos e crescem num mundo virtual.

Ao dar literalmente ao homem uma prótese tecnológica que nos questiona das possibilidades do futuro, “The Third Hand” coloca-nos perante uma constante construção de relação íntima com a tecnologia, e parece ser um exemplo metafórico da ideia de McLuhan de que o meio é a mensagem e uma extensão do homem. Aqui encontramos um confronto contínuo, que tem vindo a aparecer ao longo dos tempos, onde existe uma continuidade dividida por diferentes tecnologias.

Este confronto leva-nos a repensar a essência de variadas abordagens interdisciplinares, e o texto “The End of Books” de Robert Coover [1] é um exemplo construtivo de como no mundo real e actual um meio pode ser forçado a ser ultrapassado. Podemos pensar nisto quando o autor afirma existirem três momentos na história da alfabetização, a invenção da escrita, a invenção do texto dactilografado, e a invenção do hipertexto. Aqui percebemos a existência de um factor primordial do mundo contemporâneo, a passagem do manual para o digital.

“(…) true freedom from the tyranny of the line is perceived as only really possible now at last with the advent of hypertext, written and read on the computer, where the line in fact does not exist unless one invents and implants it in the text.”

(Coover, 1992, p.706)

O hipertexto apresenta uma tecnologia radical, interactiva e polivalente que oferece a pluralidade de discursos e liberta o leitor de um eventual domínio pelo autor. Seguindo a linha de pensamento de Coover, o processamento electrónico do texto maneia a próxima grande mudança da tecnologia de informação depois do desenvolvimento do livro impresso. Ele providência múltiplos caminhos entre segmentos de texto e anuncia que o leitor e o escritor serão co-aprendizes e co-autores.

É fácil comprovar actualmente, no nosso dia-a-dia, de como esta nova forma tecnológica tem vindo a provocar efeitos na nossa cultura, particularmente na literatura, na crítica e na educação. Ela permitiu a existência de uma escrita num espaço proporcionado pelo computador, onde não existem hierarquias ou uniformidade e onde blocos de texto são substituídos por janelas.

Nesta tecnologia de comunicação o autor afirma existirem ramificações, menus, links, redes mapeadas, onde a imaginação e a criatividade acabam por estar mais centradas nestes conceitos e não estão tão preocupadas com a declaração em si. Acaba por existir uma constante surpresa e experiência em descobrir quais as trajectórias ou intersecções possíveis nos fragmentos de texto.

Mas mais importante do que a descrição do que é o hipertexto, na minha percepção, é a ideia final transmitida por Robert Coover onde afirma que por mais séculos que o hipertexto esteja presente no mundo, talvez não esteja tanto tempo como o livro impresso, pois o seu hardware e software parecem frágeis e possíveis vítimas de um curto prazo de vida. (Coover, 1992, p.708)

“Print documents may be read in hyperspace, but hypertext does not translate into print.”

(Coover, 1992, p.709)

O que entendo com isto é que, embora nunca haja um fim do livro impresso, o texto está a perder a sua forma original, a sua força fluída de integridade para passar a ser distendido, sendo importante tentar perceber e procurar uma forma de conciliar coerência e continuidade. E como Coover refere, perceber enquanto leitor e escritor onde está o fim de uma narrativa, e perceber se o desejo de levar uma narrativa a qualquer lado a qualquer momento e em diferentes direcções se tornará numa obrigação.

No esforço de continuar a relacionar tecnologia e transformação, Terry Winograd e Fernando Flores também constroem uma crítica pungente da inteligência artificial, das ferramentas do mundo tecnológico, ou mesmo do hipertexto e do livro.

Com o texto “Using Computers – A Direction for Design”, os autores procuram essencialmente passar uma mensagem de que abandonar o trabalho até aqui realizado nos novos media, ou que deixar os computadores em contextos comunicativos é errado. Eles pretendem despertar em nós a necessidade de olhar para o computador como uma ferramenta, onde é necessário explorar os modelos e aspectos computacionais da inteligência artificial. Fundamentalmente procuram documentar e descrever de que forma se pode usar o conhecimento adquirido através da cultura computorizada, para traçar uma linha de pensamento positivo dos novos media enquanto ferramenta de design.

E na perspectiva de que um mau design obriga o utilizador a lidar com complexidades que pertencem a um domínio errado, são várias as ideologias e os temas aqui apresentados que nos orientam a desenvolver uma linguagem limpa e clara, que insere os utilizadores no mundo criado por nós.

Desta forma salientam, em primeiro lugar, que é importante não entender a falha como uma situação negativa a ser evitada, mas sim como uma situação de fácil e rápida percepção de reconhecimento do que falta na rede das ferramentas que estão a ser utilizadas.

“A breakdown reveals the nexus of relations necessary for us to accomplish your task.”

(Winograd e Flores, 1986, p.553)

Assim como a falha, acrescentam que a cegueira criada pelo design não é algo que possa ser evitado, mas que podemos estar cientes dela e desta forma estar atentos. Penso que devemos olhar para este texto como um “manual de instruções” de como utilizar o computador como um veículo para a transformação da tecnologia.

Tentando absorver tudo o que é dito pelos autores, entendo que ao utilizar o computador como ferramenta de trabalho, como qualquer outra tecnologia, não podemos escolher se este efectua ou não uma transformação, que transformação será, nem mesmo se estamos totalmente cientes dessa transformação. Mas, que podemos trabalhar no sentido de desvendar estas questões, e deixar as potencialidades da nossa consciência guiar as nossas acções, que por sua vez estão atentas à criação e à aplicação da tecnologia.

Como descrevem e definem com o termo design ontológico, ao aplicá-lo, estamos a fazer mais do que perguntar o que pode ser construído, estamos envolvidos num discurso ontológico sobre nós mesmos, o que podemos fazer, e o que podemos ser.

Desta forma é fundamental olhar para as ferramentas disponíveis na nossa realidade como instrumentos fundamentais da acção, pois é por meio da acção que geramos o mundo e que transformamos as nossas preocupações em ciclos de contínua evolução, e compreendemos o nosso mundo envolvente.

Referências Bibliográficas:

– COOVER, Robert, (1992) The End of Books, in The New Media Reader. Cambridge, MA: The MIT Press, 2003.

– WINOGRAD / FLORES, Terry / Fernando, (1986) Using Computers – A Direction for Design, in The New Media Reader. Cambridge, MA: The MIT Press, 2003.

THE MEDIUM IS THE MESSAGE (from Understanding Media, 1964) // THE GARDEN PARTY (EXCERPTS) (Billy Klüver, 1961)

Presença é, segundo o dicionário da língua portuguesa, o “facto de estar/ comparecer num lugar determinado”. Do latim praesentia, esta é uma palavra que enquanto conceito tem vindo a ser alvo de inúmeros significados, uma vez que tem vindo a acompanhar a crescente evolução e transformação da tecnologia e do nosso mundo. Presença já não é o que era, estar já não significa físico e comparecer deixou de representar expor-se.

Estaremos presentes e a viver num mundo real ou num virtual? Estaremos efectivamente a viver alguma coisa? 

Numa mesa juntamente com outras pessoas uma pessoa encontra-se presente, mas pode continuar presente online, numa conversa via internet. Apesar de certa forma estar presente, isto não significa que esteja realmente presente num sítio, no fundo não está em nenhum. Na mesa, esta pessoa está fechada em si mesma, sentada como se estivesse pressa, sem comunicar ou socializar verdadeiramente com o que se encontra ao seu redor.

Podendo ser utilizado como um exemplo para o discurso de Sherry Turkle (1948) em “Connected, but alone?”, neste exemplo encontramos aqui um meio de comunicação que é utilizado para comunicar, socializar, divertir-se, trabalhar, e que no fundo, a pessoa que o utiliza, acaba por viver simultaneamente em dois mundos através dele.

Encontramos aqui uma realidade do discurso de Marshall McLuhan [1] quando afirma em “The Medium Is the Message” que um meio é uma extensão do ser humano, um canal de comunicação que serve como veículo da transmissão da mensagem. Sublinha inúmeras vezes no texto esta ideia, onde o meio é visto como um componente determinante da comunicação, algo que adiciona qualquer coisa ao que já somos.

O meio é a mensagem. Esta formulação introduz uma nova dimensão na nossa vida pessoal, social e profissional. De acordo com o conceito de McLuhan, que apresentou o conceito de “aldeia global”, o conteúdo de qualquer meio é sempre um outro meio. (McLuhan, 1964, p.203). A escrita é o conteúdo da impressa, o conteúdo da escrita é a expressão, e o conteúdo do discurso é um processo de pensamento não-verbal.

Percebe-se que McLuhan faz uma diferenciação nas várias etapas da extensão dos media, distinguindo três períodos. Começa por enunciar uma cultura oral, própria das sociedades não alfabetizadas, onde o principal meio de comunicação é a palavra oral, onde sentidos como a audição ou o gosto são mais desenvolvidos do que a visão. Aqui é favorecido o envolvimento, a proximidade, e a espontaneidade nas interacções.

De seguida encontramo-nos com uma cultura tipográfica, que caracteriza as sociedades alfabetizadas, e como o próprio nome enuncia, dá um privilégio à escrita e à leitura, acabando por predominar e ser valorizado o visual. A lógica e o pensamento linear aqui utilizados desenvolvem disciplinas como a matemática a filosofia e a ciência. Por último, e com pressentimentos da actualmente, McLuhan fala de uma cultura electrónica que é determinada por uma participação e pela velocidade imediata que caracteriza os meios eléctricos. Segundo o autor esta cultura pode promover a retribalização da humanidade e apela a uma integração sensorial oferecida pelos meios. (McLuhan, 1964, p.207)

Esta última era coloca-nos em confronto com novas estruturas de correlação humana e desencadeia uma detenção pluridimensional, reimplantando uma expressão de comunicação oral perdida até então. A cultura eléctrica, ao actuar pela luz eléctrica, faz com que apareçam novos conteúdos e apela a uma percepção global dos dados, a uma integração intelectual, promovendo o saber. Desta forma, a luz como um meio molda a forma de agir e de interpretar as coisas.

De forma resumida, os media sofreram transformações tanto económicas como sociais e formais na sua história, eles originam mudanças na comunicação levando a própria sociedade a mudar. McLuhan ao referir-se aos meios de comunicação como meios que transmitem mensagens e que recorrem aos nossos sentidos para se fazerem transmitir, utilizando a tecnologia como prótese/ extensão, apercebemo-nos de uma relação entre os media, a organização social e as formas de pensamento nos vários momentos da história humana. É aqui que penso ser pertinente abordar o texto “The Garden Party” de Billy Klüver [2].

“Homage to New York” obra de Jean Tinguely (1925-1991), um dos artistas fundadores do Novo Realismo, com a parceria de Billy Klüver, é um exemplo de um pensamento da época, de uma relação entre os media, tecnologia, estrutura social e pensamento histórico. Neste excerto o autor faz uma apreciação da obra em que colaborou afirmando “The machine was not a functioal object and was never treated like one.” (Klüver, 1961, p.213)

Homage to New York, Jean Tinguely,1960, mixed media

Homage to New York, Jean Tinguely,1960, mixed media

Esta máquina-escultura que se auto-destrói foi apresentada em 1960, no jardim do Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, e foi o começo da história de um grupo revolucionário que experimentou as possibilidades da tecnologia na arte, Experiments in Art and Technology (E.A.T.).

Klüver, no seu texto, menciona que Jean não estava interessado apenas nas operações funcionais mas também nas possibilidades experimentais que a máquina lhe podia oferecer, citando “Jean’s machine was conceived out of “total anarchy and freedom” as he puti t”. (Klüver, 1961, p.213)

Jean desconsiderou as regras mais simples da engenharia durante a construção da sua máquina, e tanto num instante exigia que alguma coisa funcionasse, como num momento seguinte violava essa demanda de uma forma trivial.

Através desta aliança entre engenheiro e artista, percebemos que Billy Klüver (1961) acredita que a auto-eliminação da máquina, assim como a sua autodestruição, é um ideal tanto para as máquinas como para o homem. Afirma também que assim como em todos os momentos que se vê e se experimenta a mudança, “Homage to New York” representa esse momento nas nossas vidas.

Aqui percebe-se uma forte essência e vontade de eliminar a ideia de protesto contra a máquina, e de aliar todas as potencialidades da tecnologia a formas de expressão artística. Ao tentar relacionar esta obra com “The Medium Is the Message”, penso ter encontrado uma forte posição comum a ambos os feitos.

Tal como McLuhan, a obra que mais tarde foi retractada por Michael Landy [3], não pretende questionar se somos ou não dominados pelos media ou se os dominamos. Representada por um pensamento e movimento revolucionário que procurava compreender a evolução e aliar-se a ela, movimento esse representado por artistas como John Cage (1912-1992), Lucinda Childs (1940) ou Robert Rauschenberg (1925-2008), esta obra e o texto de McLuhan pretendem perceber em que medida os media nos transformam a nós e às nossas instituições.

H.2.N.Y. Self-constructing Self-destroying Tinguely Machine, Museum of Modern Art, 17th March 1960, Michael Landy, 2006, carvão sobre papel, 1500 x 2270 mm

H.2.N.Y. Self-constructing Self-destroying Tinguely Machine, Museum of Modern Art, 17th March 1960, Michael Landy, 2006, carvão sobre papel, 1500 x 2270 mm

Numa altura em que penso ser importante estar atento aos sinais de mediatização, podemos entender e olhar a presença como disponibilidade, e desta forma estar disponível para contestar o passado, interpretar o presente e agir para um futuro.

[1] Marshall McLuhan (1911-1980) foi um teórico canadiano e patriarca da sociedade digital que estudou os meios de comunicação, particularmente as consequências das alterações das tecnologias da comunicação na cultura e nas sociedades humanas.

[2] Billy Klüver (1927–2004) foi um engenheiro que juntamente com Robert Rauschenberg (1925-2008), Robert Whitman (1935) e Frederick Waldhauer (1927–1993) fundou a Experiments in Art and Technology (E.A.T.), em 1966, tendo sido anunciada à imprensa em 1967. Descrito como um pai da arte electrónica e conhecido por unir a ciência e a arte, na altura em que fundou a E.A.T. trabalhava para a companhia Bell Telephone Laboratories.

[3] Michael Landy (1963) é um artista plástico contemporâneo que coloca no seu trabalho uma forte influência de Jean Tinguely, assim como a crença de Tinguely na energia de Nova Iorque e na sua capacidade de regeneração.

Referências Bibliográficas:

– McLUHAN, Marshall, (1964) The Medium Is the Message, in The New Media Reader. Cambridge, MA: The MIT Press, 2003.

– KLÜVER, Billy, (1961) The Garden Party, in The New Media Reader. Cambridge, MA: The MIT Press, 2003.

MEN, MACHINES, AND THE WORLD ABOUT (Norbert Wiener) // THE CONSTRUCTION OF CHANGE (Roy Ascott)

Na segunda metade do século XX, onde permanecia a ideia e o sonho de um mundo cada vez melhor, trazido ao público pela engenhosidade humana, assistiu-se a um processo sem precedentes de mudanças na história do pensamento e da técnica. Juntamente com acelerações avassaladoras nas tecnologias de comunicação, artes, materiais e genética, ocorreram mudanças paradigmáticas no modo de se pensar a sociedade e as suas instituições.

Como faz referência Roy Ascott [1] em “The Construction of Change”, a participação do meio artístico na sociedade até então era vista como um envolvimento intelectual e comportamental, assim como a sua interacção como uma simulação, por parte do artista, de uma interacção entre obra e espectador.

Com o avançar do tempo e da tecnologia, tudo o que se conhecia até então passa a ser gerido pela máquina. Confinados ao ensaio de Norbert Wiener [2] “Men, Machines, and the World About”, verificamos que nesta mudança o homem confronta-se com uma nova revolução industrial que substitui a força humana pela máquina, onde conceitos como comunicação e controlo passam a tornar-se sinónimos de interactividade. O homem torna-se então fascinado por um Deus máquina.

Desde então que conceitos do mundo artístico foram alterados. A fusão da arte com a ciência (tecnologia e new media) altera a visão do que é a arte enquanto participante integradora de uma sociedade em crescente transformação. E como faz menção Frank Popper [3] em “Art of the Electronic Age”, a participação da arte passa a ser considerada como uma relação entre espectador e obra de arte aberta, e a sua interacção como uma via de inter-relação entre um indivíduo e um sistema de inteligência artificial.

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PlaytimeJacques Tati, 1967

Num cenário futurista de Paris e com um elenco entre turistas e um homem que se opõe à tecnologia, Jacques Tati, no seu filme “Playtime” retracta de forma evidente este avanço avassalador que o mundo enfrenta. Numa análise perfeitamente cumprida da cidade moderna, o realizador e actor critica a cidade que vive de forma acelerada, numa obsessão por tudo o que é moderno e tecnológico, sempre à procura de novos objectos que prometem uma vida mais prática mas que no fundo não passam de ilustrações de comodismo, e onde tudo acaba por se tornar idêntico e estático.

Num jogo constante sobre controlo e progresso, Norbert Wiener vai de encontro com este filme e a ideia transmitida nele, e fala sobre um novo campo da ciência, ao qual definiu como cibernética. Este novo termo foi definido como o estudo de sistemas mecânicos e electrónicos de controlo destinados a substituir funções realizadas por seres humanos.

O autor descreve de que forma, enquanto cientista cibernético, se interessou pelo problema homem/máquina, estabelecendo uma constante comparação entre ambos. Acabamos mesmo por nos imaginar como máquinas fabricadas por engenheiros quando Wiener cria uma relação e encontra parecenças entre o nosso sistema nervoso, um feedback necessário à própria vida e as máquinas computorizadas. Aqui ele diz que existe um sentido de interactividade comum aos dois, uma acção e uma resposta.

Mas apesar de todo o fascínio existe uma responsabilidade sobre as consequências deste jogo científico que nos quer transmitir. Embora um sistema computorizado poder economizar mais tempo por meio da automação, este sistema pode revelar-se um fracasso e tornar-se, portanto, potencialmente prejudicial à humanidade.

Não longe desta ideia mas num outro ângulo, Roy Ascott coloca esta evolução científica numa perspectiva de fusão entre arte e ciência. Começa por afirmar que toda a criatividade deve ser entendida como didáctica, que é através do seu trabalho que o artista aprende a entender a sua existência, e que deve estar atento a todas as mudanças por parte da ciência e tecnologia, “The artist’s moral responsibility demands that he should attempt to understand these changes”[4]. Só desta forma acredita numa interacção positiva.

O autor acrescenta que existe uma relação entre conhecimento e percepção, e que uma investigação coerente e profunda pode levar à formação de uma disciplina. E para se orientar plenamente no mundo moderno, o artista deve voltar-se para a ciência/ cibernética como uma referência e ferramenta de forma a moldar o mundo à sua vontade e direccionar a sociedade numa direcção, embora sem poder prático, que a faça compreender a necessidade de um pensamento próprio.

No texto de Ascott apercebemo-nos do real papel do artista na sociedade, de como a cultura regula e molda a sociedade e de como o artista é a voz da relação entre criatividade e pedagogia. Aberto a um mundo que se encontra em plena transformação, o artista tem a função de contribuir para uma mudança, pois como o autor menciona, toda a arte é de certa forma didáctica. “Through culture it informs, art becomes a force for change in society. It seems to me that one should be highly conscious of the didactic and social role of one’s art today.”[5]

Confrontados constantemente com um discurso máquina/homem, a relação que vejo entre ambos os textos é o de empregar ao artista e à sua arte um papel de meditativos das mudanças exercidas pela ciência e pela tecnologia na comunidade, onde este ao estar atento às transformações constrói uma investigação e reconstrução do comportamento a ter, apelando e alertando a restante comunidade acerca daquilo que é necessário fazer.

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Pós-modernidade – Barbara KrugerYou Are Not Yourself, 1984. Foto, Colagem, 182.9 x 121.9 cm. Mary Boone Gallery, NY [6]

Numa tentativa constante de marcar o mundo com uma tecnologia criada por nós, e torná-la invulnerável, estamos a tornarmo-nos cegos por uma mudança sem precedentes na condição humana. Nesta perspectiva creio que tanto Jacques Tati acima referido como Barbara Kruger, que aparece agora com uma estética da vida quotidiana e o triunfo do signo retractando a dependência da produção ao consumo sob a forma de marketing, parecem-me estar a enunciar um sinal de mudança, onde é essencial não nos esquecermos de deixar uma marca da nossa presença para trás.

A globalização chegou, mas o que ela prevê permanece incerto. Sendo dentro da ciência ou da arte, como afirmou Norbert Wiener, é necessário interagir e compreender a máquina, “If we want to live with the machine, we must understand the machine, we must not worship the machine“ [7].

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Temos sido confrontados ao longo das últimas décadas, com um enorme crescimento e revolução da tecnologia e da comunicação. Tudo o que predominava até há pouco tempo atrás torna-se, agora, ultrapassado num curto espaço de tempo e temáticas como “Novos Media” têm sido alvo de variadas discussões.

Dentro desta temática tanto Janet H. Murray em “Inventing the Medium” e Lev Manovich em “New Media from Borges to HTML” apresentam-nos reflexões sobre o contexto e enquadramento histórico dos novos media e o seu entendimento geral nos seus novos estudos. Apesar de Murray apresentar um amplo e diversificado conjunto de ideias, a sua pesquisa acaba por se concentrar mais em ser descritiva a nível histórico do que teórico, onde, em oposição, Lev Manovich vai mais além do que descrever historicamente o surgimento dos novos media e tenta definir claramente o foco de estudo. Lev apresenta uma definição que se aproxima do conceito, colocando-nos mesmo inicialmente com a questão “O que são afinal os novos media?” enquanto que Murray não difunde ou oferece conclusões peculiares.

No texto de Lev Manovich começamos por entender os “new media” como uma informação criada ou manipulada através das tecnologias, e apercebemos-mos que com o decorrer do tempo começou-se a considerar esta informação como uma possível forma de expressão artística. O autor declara igualmente que existe uma diferença cultural quanto ao conceito desta nova expressão artística entre os Estados Unidos e a Europa uma vez que o processo de assimilação na cultura de massas é demasiado rápido, não deixando espaço para se reflectir acerca dos novos sistemas de comunicação. Declara, desta forma, que os Estados Unidos tiveram inicialmente pouca familiarização com o termo.

Janet Murray, no seu artigo sobre o computador como meio expressivo, alerta-nos para uma profunda transformação social que se começou a assistir na sociedade contemporânea, afirmando que este meio expressivo e tecnológico chegou através de muitos antecedentes e que gerou uma variedade de formatos, mas que é resultado de uma desordem de esforços e que deve ser visto como um sinal, “…the term “new media” is a sign of our current confusion about where these efforts are leading and our breathlessness at the pace of change, particularly in the last two decades of the 20th century.”.

O que há de importante a realçar nesta forte ênfase nas intersecções entre tecnologia e cultura de Murray, é a sua visão sobre duas diferentes envolventes e visões dos novos media, retractadas por humanistas e engenheiros. Estes elementos essenciais ao seu desenvolvimento diferenciavam-se em termos de ideologias.

Os engenheiros acreditavam numa automatização oferecida pelo computador, onde tarefas e processos de produção tornam-se inteligíveis e acelerados, e que esta máquina capaz de armazenar e processar dados poderia ser uma solução para o aumento da produtividade e de um ser humano mais intelecto. Sob um outro ponto de vista, os humanistas chamam a atenção para a natureza arbitrária deste objecto, acreditando que este rompe com a intuição de cultura e leva a uma ordem da nossa própria consciência humana.

Lev Manovich afirma a certa altura, no seguimento destes elementos estruturais dos novos media, que informáticos e programadores podem ser considerados como os artistas de uma nova era. Esta ideia remete-me para a conclusão de Murray que diz que humanistas e engenheiros, após a viragem que ocorreu no final da década de 80, passam a colaborar e a poder trabalhar juntos.

Esta ideia de relação e fusão surge com o pós-guerra. Havia uma necessidade de compreender a história do séc. XX, mas para os humanistas do final deste século as ferramentas de análise tinham aumentado mas o conteúdo da análise tinha sido desorientado. Já não se acreditava em qualquer coisa e havia uma necessidade de explorar novas formas de expressão artística. Ao mesmo tempo os engenheiros e a comunidade científica encontravam-se numa época de grande seriedade, onde o computador entrava no mundo como um novo meio de representação, acabando por surgir o “personal computer” e a internet. Este marco acaba por unir as diferentes ciências que até então permaneciam desligadas.

A era do computador como ferramenta diária para negócios, educação e entretenimento pede aos engenheiros mais acesso a informação, detalhe e pormenor, e aos humanistas e artistas da época a compreensão de um design interactivo como um novo campo de estudo. É desta relação que se começa a estabelecer directrizes e normas para interfaces gráficos e surgem novos sistemas educativos.

Fica então marcada a noção de colaboração, mas Lev Manovich transmite a ideia que ao mesmo tempo que os media começaram a amadurecer nos fins da década de 90, a sua própria razão de existência passa a ser ameaçada e passa-se de uma minoria cultural para o mainstream. O autor acha que a banalização e o fácil acesso a estas novas plataformas não permitiu que o debate intelectual surgisse com a devida força.

O que penso ser fulcral em ambos os autores é a ideia de focagem em colaborar para estruturas de aprendizagem em que a exploração do computador é motivada pelo desejo de fomentar os processos da própria mente. Existe uma ideia de mudança onde não se alteram somente aspectos tecnológicos mas igualmente aspectos culturais, formas de pensar e de se comportar.

Apesar de discursos divergentes, ambos os autores oferecem uma ideia de que o conhecimento humano é impulsionado pelo conhecimento ampliado, e que manipular o meio digital e as ferramentas tecnológicas requer uma preparação por parte do indivíduo, de forma a não sermos esmagados pelo nosso próprio conhecimento.

Num mundo onde a tecnologia é cada vez mais interactiva e dinâmica, é necessário, enquanto designers, expandir os nossos meios de comunicação e métodos de experimentação, direccionando-nos sempre pela reflexão.

Referências bibliográficas:

– MURRAY, Janet H. “Inventing the Médium: Principals of Interaction Design” Cambridge, MA: The MIT Press, 2012

– MANOVICH, Lev. “New Media From Borges to HTML” The New Media Reader. Ed. Noah Wardrip-Fruin & Nick Montfort. Cambridge, Massachusetts, 2003.