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Monthly Archives: Outubro 2013

MEN, MACHINES, AND THE WORLD ABOUT (Norbert Wiener) // THE CONSTRUCTION OF CHANGE (Roy Ascott)

Na segunda metade do século XX, onde permanecia a ideia e o sonho de um mundo cada vez melhor, trazido ao público pela engenhosidade humana, assistiu-se a um processo sem precedentes de mudanças na história do pensamento e da técnica. Juntamente com acelerações avassaladoras nas tecnologias de comunicação, artes, materiais e genética, ocorreram mudanças paradigmáticas no modo de se pensar a sociedade e as suas instituições.

Como faz referência Roy Ascott [1] em “The Construction of Change”, a participação do meio artístico na sociedade até então era vista como um envolvimento intelectual e comportamental, assim como a sua interacção como uma simulação, por parte do artista, de uma interacção entre obra e espectador.

Com o avançar do tempo e da tecnologia, tudo o que se conhecia até então passa a ser gerido pela máquina. Confinados ao ensaio de Norbert Wiener [2] “Men, Machines, and the World About”, verificamos que nesta mudança o homem confronta-se com uma nova revolução industrial que substitui a força humana pela máquina, onde conceitos como comunicação e controlo passam a tornar-se sinónimos de interactividade. O homem torna-se então fascinado por um Deus máquina.

Desde então que conceitos do mundo artístico foram alterados. A fusão da arte com a ciência (tecnologia e new media) altera a visão do que é a arte enquanto participante integradora de uma sociedade em crescente transformação. E como faz menção Frank Popper [3] em “Art of the Electronic Age”, a participação da arte passa a ser considerada como uma relação entre espectador e obra de arte aberta, e a sua interacção como uma via de inter-relação entre um indivíduo e um sistema de inteligência artificial.

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PlaytimeJacques Tati, 1967

Num cenário futurista de Paris e com um elenco entre turistas e um homem que se opõe à tecnologia, Jacques Tati, no seu filme “Playtime” retracta de forma evidente este avanço avassalador que o mundo enfrenta. Numa análise perfeitamente cumprida da cidade moderna, o realizador e actor critica a cidade que vive de forma acelerada, numa obsessão por tudo o que é moderno e tecnológico, sempre à procura de novos objectos que prometem uma vida mais prática mas que no fundo não passam de ilustrações de comodismo, e onde tudo acaba por se tornar idêntico e estático.

Num jogo constante sobre controlo e progresso, Norbert Wiener vai de encontro com este filme e a ideia transmitida nele, e fala sobre um novo campo da ciência, ao qual definiu como cibernética. Este novo termo foi definido como o estudo de sistemas mecânicos e electrónicos de controlo destinados a substituir funções realizadas por seres humanos.

O autor descreve de que forma, enquanto cientista cibernético, se interessou pelo problema homem/máquina, estabelecendo uma constante comparação entre ambos. Acabamos mesmo por nos imaginar como máquinas fabricadas por engenheiros quando Wiener cria uma relação e encontra parecenças entre o nosso sistema nervoso, um feedback necessário à própria vida e as máquinas computorizadas. Aqui ele diz que existe um sentido de interactividade comum aos dois, uma acção e uma resposta.

Mas apesar de todo o fascínio existe uma responsabilidade sobre as consequências deste jogo científico que nos quer transmitir. Embora um sistema computorizado poder economizar mais tempo por meio da automação, este sistema pode revelar-se um fracasso e tornar-se, portanto, potencialmente prejudicial à humanidade.

Não longe desta ideia mas num outro ângulo, Roy Ascott coloca esta evolução científica numa perspectiva de fusão entre arte e ciência. Começa por afirmar que toda a criatividade deve ser entendida como didáctica, que é através do seu trabalho que o artista aprende a entender a sua existência, e que deve estar atento a todas as mudanças por parte da ciência e tecnologia, “The artist’s moral responsibility demands that he should attempt to understand these changes”[4]. Só desta forma acredita numa interacção positiva.

O autor acrescenta que existe uma relação entre conhecimento e percepção, e que uma investigação coerente e profunda pode levar à formação de uma disciplina. E para se orientar plenamente no mundo moderno, o artista deve voltar-se para a ciência/ cibernética como uma referência e ferramenta de forma a moldar o mundo à sua vontade e direccionar a sociedade numa direcção, embora sem poder prático, que a faça compreender a necessidade de um pensamento próprio.

No texto de Ascott apercebemo-nos do real papel do artista na sociedade, de como a cultura regula e molda a sociedade e de como o artista é a voz da relação entre criatividade e pedagogia. Aberto a um mundo que se encontra em plena transformação, o artista tem a função de contribuir para uma mudança, pois como o autor menciona, toda a arte é de certa forma didáctica. “Through culture it informs, art becomes a force for change in society. It seems to me that one should be highly conscious of the didactic and social role of one’s art today.”[5]

Confrontados constantemente com um discurso máquina/homem, a relação que vejo entre ambos os textos é o de empregar ao artista e à sua arte um papel de meditativos das mudanças exercidas pela ciência e pela tecnologia na comunidade, onde este ao estar atento às transformações constrói uma investigação e reconstrução do comportamento a ter, apelando e alertando a restante comunidade acerca daquilo que é necessário fazer.

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Pós-modernidade – Barbara KrugerYou Are Not Yourself, 1984. Foto, Colagem, 182.9 x 121.9 cm. Mary Boone Gallery, NY [6]

Numa tentativa constante de marcar o mundo com uma tecnologia criada por nós, e torná-la invulnerável, estamos a tornarmo-nos cegos por uma mudança sem precedentes na condição humana. Nesta perspectiva creio que tanto Jacques Tati acima referido como Barbara Kruger, que aparece agora com uma estética da vida quotidiana e o triunfo do signo retractando a dependência da produção ao consumo sob a forma de marketing, parecem-me estar a enunciar um sinal de mudança, onde é essencial não nos esquecermos de deixar uma marca da nossa presença para trás.

A globalização chegou, mas o que ela prevê permanece incerto. Sendo dentro da ciência ou da arte, como afirmou Norbert Wiener, é necessário interagir e compreender a máquina, “If we want to live with the machine, we must understand the machine, we must not worship the machine“ [7].

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Temos sido confrontados ao longo das últimas décadas, com um enorme crescimento e revolução da tecnologia e da comunicação. Tudo o que predominava até há pouco tempo atrás torna-se, agora, ultrapassado num curto espaço de tempo e temáticas como “Novos Media” têm sido alvo de variadas discussões.

Dentro desta temática tanto Janet H. Murray em “Inventing the Medium” e Lev Manovich em “New Media from Borges to HTML” apresentam-nos reflexões sobre o contexto e enquadramento histórico dos novos media e o seu entendimento geral nos seus novos estudos. Apesar de Murray apresentar um amplo e diversificado conjunto de ideias, a sua pesquisa acaba por se concentrar mais em ser descritiva a nível histórico do que teórico, onde, em oposição, Lev Manovich vai mais além do que descrever historicamente o surgimento dos novos media e tenta definir claramente o foco de estudo. Lev apresenta uma definição que se aproxima do conceito, colocando-nos mesmo inicialmente com a questão “O que são afinal os novos media?” enquanto que Murray não difunde ou oferece conclusões peculiares.

No texto de Lev Manovich começamos por entender os “new media” como uma informação criada ou manipulada através das tecnologias, e apercebemos-mos que com o decorrer do tempo começou-se a considerar esta informação como uma possível forma de expressão artística. O autor declara igualmente que existe uma diferença cultural quanto ao conceito desta nova expressão artística entre os Estados Unidos e a Europa uma vez que o processo de assimilação na cultura de massas é demasiado rápido, não deixando espaço para se reflectir acerca dos novos sistemas de comunicação. Declara, desta forma, que os Estados Unidos tiveram inicialmente pouca familiarização com o termo.

Janet Murray, no seu artigo sobre o computador como meio expressivo, alerta-nos para uma profunda transformação social que se começou a assistir na sociedade contemporânea, afirmando que este meio expressivo e tecnológico chegou através de muitos antecedentes e que gerou uma variedade de formatos, mas que é resultado de uma desordem de esforços e que deve ser visto como um sinal, “…the term “new media” is a sign of our current confusion about where these efforts are leading and our breathlessness at the pace of change, particularly in the last two decades of the 20th century.”.

O que há de importante a realçar nesta forte ênfase nas intersecções entre tecnologia e cultura de Murray, é a sua visão sobre duas diferentes envolventes e visões dos novos media, retractadas por humanistas e engenheiros. Estes elementos essenciais ao seu desenvolvimento diferenciavam-se em termos de ideologias.

Os engenheiros acreditavam numa automatização oferecida pelo computador, onde tarefas e processos de produção tornam-se inteligíveis e acelerados, e que esta máquina capaz de armazenar e processar dados poderia ser uma solução para o aumento da produtividade e de um ser humano mais intelecto. Sob um outro ponto de vista, os humanistas chamam a atenção para a natureza arbitrária deste objecto, acreditando que este rompe com a intuição de cultura e leva a uma ordem da nossa própria consciência humana.

Lev Manovich afirma a certa altura, no seguimento destes elementos estruturais dos novos media, que informáticos e programadores podem ser considerados como os artistas de uma nova era. Esta ideia remete-me para a conclusão de Murray que diz que humanistas e engenheiros, após a viragem que ocorreu no final da década de 80, passam a colaborar e a poder trabalhar juntos.

Esta ideia de relação e fusão surge com o pós-guerra. Havia uma necessidade de compreender a história do séc. XX, mas para os humanistas do final deste século as ferramentas de análise tinham aumentado mas o conteúdo da análise tinha sido desorientado. Já não se acreditava em qualquer coisa e havia uma necessidade de explorar novas formas de expressão artística. Ao mesmo tempo os engenheiros e a comunidade científica encontravam-se numa época de grande seriedade, onde o computador entrava no mundo como um novo meio de representação, acabando por surgir o “personal computer” e a internet. Este marco acaba por unir as diferentes ciências que até então permaneciam desligadas.

A era do computador como ferramenta diária para negócios, educação e entretenimento pede aos engenheiros mais acesso a informação, detalhe e pormenor, e aos humanistas e artistas da época a compreensão de um design interactivo como um novo campo de estudo. É desta relação que se começa a estabelecer directrizes e normas para interfaces gráficos e surgem novos sistemas educativos.

Fica então marcada a noção de colaboração, mas Lev Manovich transmite a ideia que ao mesmo tempo que os media começaram a amadurecer nos fins da década de 90, a sua própria razão de existência passa a ser ameaçada e passa-se de uma minoria cultural para o mainstream. O autor acha que a banalização e o fácil acesso a estas novas plataformas não permitiu que o debate intelectual surgisse com a devida força.

O que penso ser fulcral em ambos os autores é a ideia de focagem em colaborar para estruturas de aprendizagem em que a exploração do computador é motivada pelo desejo de fomentar os processos da própria mente. Existe uma ideia de mudança onde não se alteram somente aspectos tecnológicos mas igualmente aspectos culturais, formas de pensar e de se comportar.

Apesar de discursos divergentes, ambos os autores oferecem uma ideia de que o conhecimento humano é impulsionado pelo conhecimento ampliado, e que manipular o meio digital e as ferramentas tecnológicas requer uma preparação por parte do indivíduo, de forma a não sermos esmagados pelo nosso próprio conhecimento.

Num mundo onde a tecnologia é cada vez mais interactiva e dinâmica, é necessário, enquanto designers, expandir os nossos meios de comunicação e métodos de experimentação, direccionando-nos sempre pela reflexão.

Referências bibliográficas:

– MURRAY, Janet H. “Inventing the Médium: Principals of Interaction Design” Cambridge, MA: The MIT Press, 2012

– MANOVICH, Lev. “New Media From Borges to HTML” The New Media Reader. Ed. Noah Wardrip-Fruin & Nick Montfort. Cambridge, Massachusetts, 2003.